20.1.10

VISITAR JERUSALÉM CAUSA TRANSTORNO MENTAL EM ALGUMAS PESSOAS diz jornal

Ao chegar em Jerusalém muitos turistas acham que são personagens bíblicos. Um transtorno mental apelidado de SÍNDROME DE JERUSALÉM. É sobre isso que fala o artigo do jornal Folha Universal de novembro de 2009.

Enfim, simples visitantes de Jerusalém se tornam pacientes psiquiátricos devido ao fascínio do lugar.

Para ver a o artigo abaixo em tamanho ampliado, clique bem nele.

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19.1.10

CURE-SE DA ESQUIZOFRENIA diz jornal do Racionalismo Cristão

Agora deixo para vocês parte do jornal A RAZÃO, jornal do Racionalismo Cristão. Esse artigo do jornal foi publicado em dezembro de 2009. A manchete é bem chamativa: CURE-SE DA ESQUIZOFRENIA.

Bem atraente.

Mas antes de tirar conclusões leia o artigo. Clique na imagem abaixo para ampliar. Leia.

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Antes de mais nada, vamos afastar de nossas cabeças toda forma de intolerância religiosa.

A religião é super-importante na recuperação das pessoas que foram marcadas pela doença mental.

18.1.10

PACIENTE PSIQUIÁTRICA JOGA FILHO NA PAREDE Manchete

Expresso – Sexta-feira, 15 de janeiro de 2010



Uma mulher é acusada de jogar o próprio filho contra a parede na madrugada de anteontem em Guarulhos, São Paulo. A criança de um ano está internada em estado grave. A mãe foi em cana. A PM chegou quando várias pessoas tentavam linchar a jovem, de 23 anos.

A mulher explicou na delegacia que viu um homem com bota, capa preta e chifres, que disse que já tinha lhe tirado um filho e que agora levaria o outro. Segundo a dona de casa, o homem pegou o filho, o jogou na parede e depois a empurrou.

Segundo a avó da criança, a mulher apresenta problemas psicológicos e já chegou a sufocar o menino dormindo em cima dele. Na época, a avó tentou ficar com a guarda da criança, mas não teve sucesso.

A dona de casa deu a luz a gêmeos, mas uma das crianças morreu ainda no hospital. Médicos aconselharam a mulher a receber acompanhamento psicológico. Ao invés disso (EM VEZ DISSO), ela procurou centros espirituais.

Para o delegado que cuida do caso, a mulher inventou toda essa história do coisa ruim para não ser culpada por tentar matar o próprio filho.


Nesta semana eu estarei colocando aqui algumas manchetes em que pacientes psiquiátricos, ou pacientes psiquiátricos em potencial são manchetes.

Enfim, são manchetes de JORNAIS IMPRESSOS, os bons e velhos jornais de papel. Os jornais foram DIGITALIZADOS, "escaneados".

Nesta manchete uma suposta paciente psiquiátrica, uma mulher "com problemas psicológicos", joga o próprio bebê contra a parede. Ou SUPOSTAMENTE joga o bebê contra a parede, já que ela diz que foi um homem de chifres.

Bem, não sei o que aconteceu, mas sei que a coisa deve ser investigada seriamente. Afinal, nós não podemos ter certeza de que a mulher está mentindo só porque ela tem "problemas psicológicos".

Depois, se ela realmente cometeu esse crime, não dá para jogar a culpa nos "problemas psicológicos"...

17.1.10

OS CASARÕES - Capítulo 4 (Relato: um hospício, uma fábrica de ilusões)

OS CASARÕES



EMERGÊNCIA! - CAPÍTULO 4


Centro Psiquiátrico D. Pedro II. Um manicômio localizado numa tranqüila vizinhança chamada Engenho de Dentro. Ninguém tinha informado Estêvão dessas coisas. Ele leu nos cobertores. (E ele não estava delirando quando leu nos cobertores. Mandaram escrever tais dados nos cobertores, talvez como uma propaganda do manicômio!) Agora sua mente ia para algumas mesinhas, de manhãzinha. Ele mal podia ver as coisas ao seu redor. Ele via tudo num pálido bem forte. Ele não podia distinguir, definir nada. Daquele momento em diante ele não podia se lembrar de nenhum rosto, pois todas as imagens eram embaralhadas. Ele só podia se lembrar de vozes. Vozes violentas e agressivas. Gritando o tempo todo. Mas a gritaria vinha principalmente do pessoal que trabalhava lá.

Aquele era o começo da confusão. Ele não podia ver direito e além disso os funcionários de lá (enfermeiros, certamente) gritavam com os clientes o tempo todo. Eles gritavam “sente aqui, porra!” “Não pegue isso!” No momento em questão ele e seus companheiros eram levados para tomar café da manhã. Ele mal podia ver. Mal se aguentava de pé. Ele se sentia como se sua mente quisesse abandonar o corpo.

As vozes zuniam. Naquele momento ele ainda tinha consciência das coisas, ele ainda podia falar. Mas a equipe do manicômio não queria acreditar nisso. Tratavam Estêvão como se ele fosse irracional, inferior. Ele e seus companheiros não passavam de criaturas irracionais naquele lugar.

Se ele fosse para um lado eles gritavam “pare! Você não pode ir aí!” Ele não sabia onde estava e era enxotado o tempo todo. Já estava difícil para ele ver as coisas, não lhe davam espaço. Gritavam o tempo todo... logo Estêvão começava a dar lugar para as ilusões. Ninguém tinha explicado para ele o que estava acontecendo, então ele começou a fantasiar sua própria história em sua cabecinha... será que ele não estava morto, num limbo talvez? Mais tarde, bem mais tarde ele ficou sabendo que estava na emergência do “hospital”.

Explicação do capítulo 4: Um hospício, uma fábrica de ilusões

A ideia inicial deste capítulo é fácil de entender: mostrar a forma desumana em que profissionais de saúde mental estressados gritam com seus pacientes psiquiátricos, tratam-nos sem o merecido respeito e humanidade.

Depois há a menção da visão turva e as sensações estranhas. Efeito dos psicotrópicos, certamente. Mas uma vez há a menção ao fato desses profissionais imporem um "tratamento" e sequer explicar para seus pacientes o objetivo desse "tratamento".

Por fim, o capítulo busca mostrar o efeito contrário que esses hospícios causam: uma pessoa que não estava delirando passa a delirar devido ao tratamento indiferente oferecido nesses hospícios. Passa a mergulhar cada vez mais num mundo de ilusões.

16.1.10

OS CASARÕES - Capítulo 3 (Relato: "louco" entrando no hospício)

OS CASARÕES

MEMÓRIAS NAS MEMÓRIAS - CAPÍTULO 3


No começo ele não podia sequer se lembrar do momento em que o levavam pelo hospital, quando eles o tinham pego e o estavam levando para tratamento. De alguma forma aquelas memórias próximas tinham sido apagadas. Aquelas memórias de pouco tempo atrás começaram a tomar forma quando seu irmão Ezequias disse: “você estava muito agressivo.” Mas aquelas eram memórias isoladas. Memórias separadas. A palavra “agressivo” o fez se lembrar daquele momento. Ele estava sendo levado para uma maca. Ele estava totalmente amarrado. Suas roupas estavam encharcadas de sangue, logo seus maiores medos lhe cruzaram a mente.

Ele devia ter cometido alguma violência. Talvez ele tivesse matado alguém! Senão por que estaria amarrado como um animal e carregado como um saco de batatas? Ele sempre fora um excelente lutador, tinha noções de Kung Fu, Jiu Jitsu, Karate, técnicas de Ninja... Ele poderia facilmente matar uma pessoa. Durante toda sua vida ele tinha temido o dia em que ele viria a perder o controle. “Coloca ele lá!” Disse um dos homens. Eles jogaram-no na maca como um gari joga o pesado saco de lixo no caminhão, aliviado quando se livra do fardo desagradável e mal-cheiroso. Como sempre, houve uma pausa em sua memória.

A próxima coisa que ele se lembrou foi quando ele sentiu uma dorzinha na canela esquerda. Ele não sabia o que estava acontecendo, então ele começou a agitar as pernas para que a dor e o desconforto passassem. Então ele viu o homem de branco ( dessa vez ele não se lembrava do que acontecera momentos antes, mas sua mente não estava muito confusa, então ele sabia que eram doutores e enfermeiros).

O enfermeiro fez cara feia e resmungou para o bombeiro que estava ao seu lado: “tá vendo?” O bombeiro entendeu a mensagem e começou a gritar com extrema violência: “abaixe as pernas! Abaixe as pernas, vamos! Abaixe as pernas, porra!” Estêvão não queria apanhar, nem sofrer nenhuma violência, por isso ele abaixou a perna.

E também ele não queria que mais violência fosse gerada naquele dia. Ele podia se lembrar de seu nome, mas não tinha as lembranças dos últimos dias. E sua mente era como uma como Internet barata que toda hora caía, a todo momento era desconectada. A cada momento ele ficava mais confuso. A cada momento as coisas sumíam de sua mente.

Quando ele chegou lá ele ainda podia se lembrar de suas experiências com línguas. Ele planejava facilitar o aprendizado de línguas para ele e para o mundo. Uma de suas últimas lembranças era exatamente pesquisas a esse respeito. Mas, de repente, as pessoas a seu redor falavam enrolado. O passar do tempo trazia confusão, não clareza. As pessoas falavam enrolado, logo ele não sabia sequer em que país ele estava. Primeiro, porque ninguém falava com ele como se ele fosse gente.

Num momento ele tentou chamar um dos enfermeiros, que apenas riu dele e disse “ele tá doidão ainda”. Num certo momento o homem de branco exigiu: “Vamos! O que você fez, cara!? Diga, rápido!” Estevão só podia dizer “não sei!.. Eu não me lembro.” numa voz bem pequena, bem frágil. Então seu irmão disse: “ele não se lembra, ele tomou injeção a pouco.”Mas tarde ele perguntou de novo: “Onde estou?”, “você está no lugar certo.”, respondeu um dos homens de branco, dessa vez, gentilmente. Foi uma resposta indireta, então Estêvão tentou novamente: “ Eu tô no hospício?”, perguntou com dificuldade. “É um hospital.”, corrigiu o homem, como se fosse um professor. “Hospital..” repetiu Estevão, como se para não esquecer mais, porém num sotaque espanhol que chamou a atenção do homem de branco: “É assim que se fala? Fala direito, vamos. Hospital.” “Hospital.”

Em um outro momento ele via seus irmãos, Estefania e Ezequias, falarem de seus sintomas: “ele estava agressivo, dizia que era Deus.”. Porém nada era perguntado a ele. Era como se ele fosse surdo e mudo. Era como se ele não fosse uma pessoa. Sua mente voava. Se ele estava sendo ignorado daquele jeito, talvez ele não fosse adulto, como sempre fora. Talvez estivesse em uma outra encarnação e aqueles não fossem seus irmãos, mas sim seus pais. Pais que cuidavam de uma criança que não podia falar...

Explicação deste capítulo de OS CASARÕES


OS CASARÕES conta a história real de um doente mental entrando no hospício e como é a recepção e, na sequência,como é o "tratamento".

Este capítulo enfatiza como os familiares passam a chamar os pacientes psiquiátricos de acordo com a forma usada pelos profissionais de saúde mental. Estevão nunca tinha ouvido seu familiar usar o termo "agressivo". Parecia um termo fora da realidade daquela família. Pessoas da realidade cultural daquela família naturalmente diriam "Você estava batendo em todo mundo" ou "Você me bateu".

Mas a pergunta do profissional de saúde mental é fácil de adivinhar: "Ele estava agressivo?" E fácil deduzir também que esses profissionais INDUZEM os familiares a dizer certas coisas.

Retrata também como um paciente psiquiátrico não tem a menor voz nessa acolhida no hospício. E na parte clínica, chama mais uma vez atenção para o completo esquecimento do paciente psiquiátrico após o surto.

Também chama a atenção para o fato que, quando profissionais de saúde mental tentam passar uma ideia de que paciente psiquiátrico é violento ele acaba por confundir mais ainda a cabeça desse paciente psiquiátrico, que nunca verá a violência, que no fundo é puramente estigma.

Esse capítulo também dá uma nota sobre a forma indiferente que a equipe dos hospitais e bombeiros lidam com alguém que acabou de sofrer um surto. Chama atenção para a forma que eles gritam com pacientes psiquiátricos. Não só por violência, talvez. Mas talvez por acreditar que para um "maluco" entender é preciso gritar. Foi isso que um amigo me disse uma vez...

Por fim mostra como esses profissionais de saúde mental tentam acreditar e fazer com que outros acreditem que um hospício é um hospital. Sabemos que na linguagem popular, o lugar onde pessoas são isoladas e tratadas como descrito nesse capítulo se chama hospício.

Para ver os primeiros capítulos siga o link OS CASARÕES.

15.1.10

A história ignorada do Paciente Psiquiátrico

Antes de deixar o segundo capítulo da história verídica que conta a experiência de um paciente psiquiátrico no hospício, no hospital psiquiátrico, devo dizer que me chamaram no PROJAC, na Globo, maior rede de televisão do Brasil. Me chamaram para contar minha "história de superação".

Acho que não preciso dizer que eu fiquei sem saber o que dizer, já que não tenho nenhuma história de superação. Daí que chegou um momento que eu fiquei parado com cara de bobo sem saber o que dizer.

Na verdade o que eu tenho é uma HISTÓRIA DE OBSERVAÇÃO, ou seja eu VI uma história triste, uma forma de vida desoladora. Tive a tristeza de ver grande indiferença. O que eu vi é realmente fantástico, no sentido negativo, infelizmente. Pessoas vivendo como bichos dentro dos hospícios que são chamados de hospitais psiquiátricos. Na verdade bem pior do que bichos.

Mas, infelizmente, as pessoas não estão muito interessadas em saber o que realmente acontece com as pessoas submetidas a essas formas de tratamento. O que eu vi não interessaria a Rede Globo. Infelizmente as pessoas têm ignorado a história do paciente psiquiátrico no hospício. E eu espero ajudar a mudar isso.

Ao ler a história de Austregésilo Carrano, conhecido ex-paciente psiquiátrico, eu pensei "Carrano, você não viu nada".

E naturalmente eu não tive nenhuma grande superação. Nem sofri muito. Não comparado ao sofrimento que eu vi. Pessoas reduzidas a bichos.

A triste dor dos Pacientes Psiquiátricos no hospício

Pacientes psiquiátricos comendo lixo, e o que é pior, num lugar onde havia comida e não havia necessidade de se comer lixo.

Enfermeiros sentindo prazer em amarrar pessoas. Pessoas acostumadas a ser amarradas, chegando ao ponto de pedir para ser amarradas, e os enfermeiros, viciados em amarrar, amarravam com prazer.

Nem vou falar das agressões por parte de enfermeiros e auxiliares, já que tal agressões são esperadas, já que tais enfermeiros e auxiliares não sabiam como lidar com pacientes psiquiátricos, e infelizmente ainda não sabem, mas espero que isso mude.

Pessoas que nunca saíam do delírio sofrendo abuso sexual da parte dos próprios companheiros de internação. Pacientes psiquiátricos lúcidos que eram praticamente estuprados.

Com certeza eu vi pessoas se cagando e se mijando como Carrano descreveu eu seu livro Canto dos Malditos, mas comparado a outras coisa isso não era tão grave.

Como Carrano descreveu em seu livro, eu vi pessoas brigando por cigarro, como se suas vidas dependessem disso, mas isso, infelizmente eu continuo vendo nos CAPS.

Não ignore o sofrimento da doença mental

Com todo respeito a Carrano, eu vi pessoas passando por sofrimentos bem piores do que o tratamento de choque que ele descreve tanto no livro. Eletrochoque é considerado tratamento (ainda que controverso), pessoas comendo lixo enquanto deliram no hospício, não é. Ou pior: pessoas comendo lixo no hospício quando NÃO estão delirando.

E não pense que só porque a pessoa está perdida em alucinações a pessoa não sofre. Não seja indiferente para pensar assim. Olhe para as pessoas e tente ver a dor. Se esforçe um pouco.

Eu já estive lá e posso dizer para você que quem está perdido em delírios nem sempre está muito feliz por estar livre do mundo cheio de problemas. Não se iluda só porque a pessoa APARENTEMENTE está sorrindo. E nem sinta pena. Em vez disso, faça alguma coisa.

Tente se colocar no lugar daquele paciente psiquiátrico que delira

Se você tivesse a sensação de estar sendo observado por um zilhão de pessoas você ia entender o que eu estou dizendo. Ou se você visse as cenas mais invasivas do mundo, talvez entendesse. Ou se você não pudesse dizer quem é uma pessoa de verdade e quem é uma alucinação, quem sabe compreenderia. Eu poderia descrever outras formas de sofrimento psíquico piores, mas infelizmente são bem difíceis de colocar em palavras.

Queria deixar claro para quem desconhece a situação da doença mental que choque elétrico não é NADA comparado ao sofrimento psíquico. O que me dá raiva é que tem gente que acha que uma simples dor de dente é pior que sofrimento psíquico.

Há quem ache que uma experiência maravilhosa como o parto é a coisa mais dolorida do mundo. Não sei qual é a coisa mais dolorida do mundo, mas posso garantir que não é parto, nem dor de dente. Muito menos a dor da eletroconvulsoterapia (eletrochoque). Tanto que algumas pessoas agradecem por terem sido submetidos ao eletrochoque, que as livrou do terrível sofrimento psíquico. Daí a gente vê que tratamento de choque não doi tanto assim.

Quem fica doente mental não é fraco

Entenda uma coisa: nenhuma dor física pode ser comparada com a dor mental. Ninguém com doença mental é FRACO. Não seja infantil, não seja preconceituoso. Não pense que a pessoa apresentou doença mental por não ser capaz de enfrentar os problemas da vida. Não pense que a pessoa só queria escapar. ISSO NÃO É VERDADE. Isso é um preconceito.

Na verdade Carrano sentiu tanto o choque elétrico simplesmente porque FELIZMENTE não tinha experimentado nenhum sofrimento psíquico antes, de fato. (Eu digo FELIZMENTE porque levar um choque é bem melhor que sofrer certos sofrimentos psíquicos.) Ele não era doente mental, apesar que, depois do "tratamento" ele passou a apresentar várias complicações mentais e físicas.

É claro que devo deixar claro que há formas leves de sofrimento psíquico. Há formas leves de doença mental. Você talvez tenha experimentado uma forma leve de doença mental e por isso diga que eu estou errado. Mas o que me preocupa mais não é quem sentiu menos sofrimento psíquico que eu. O que me preocupa são aqueles que podem estar sofrendo bem além de minha imaginação, bem mais do que eu jamais poderia imaginar. Já que até onde posso ver, muitos pacientes psiquiátricos sofrem muito mais do que eu, sendo privados de uma vida, na verdade sendo privados mesmo de uma subvida.

OS CASARÕES



TÁBULA RASA - CAPÍTULO 2

No princípio havia caos e escuridão. É um tipo de renascimento. Ele está num lugar. Ele sequer sabe por que ele está lá. Ele está totalmente confuso. Nada sabe ele de sua própria descendência, ele nem sabe se está vivo ou morto. Não sabe se é homem ou mulher. Talvez ele não seja nem um, nem outro. Talvez ele seja um anjo. Ou um demônio... É um recomeço. É um tipo de renascimento, pois ele é uma tabula rasa novamente.

Como as pessoas falam com ele passa a conhecer o próprio nome. Seu nome é a abertura da grande porta de seu passado... Suas memórias eram de muito tempo atrás, mas talvez nem seja tanto tempo, afinal, ele tinha pouca noção do tempo. Ele mal sabia quando era dez horas da manhã ou três da tarde. Não lhe deixavam ver o sol.

A menção de seu nome tornou as memórias mais claras. As memórias que ele tinha eram obscuras, porém a lembrança de seu nome deu-lhe uma certa identidade. Essa identidade o ligou a outras pessoas fazendo que as outras memórias fluíssem com mais facilidade.

Daí ele passava a receber lembranças mais lúcidas. De sua infância, adolescência e do início de sua vida adulta. Ele não conseguia se lembrar de coisas recentes de sua vida. Suas lembranças paravam num certo ponto e havia uma estranha pausa nas memórias.

Algumas das pessoas de branco lhe perguntaram sobre sua família. Quantos irmãos e irmãs ele tinha? “Você tem pai?” eles o estavam testando. Ele hesitou, mas respondeu todas as perguntas.Ao passo que seus parentes iam visitá-lo, suas memórias retornavam. No princípio ele mal podia falar com eles. Era cansativo, difícil. Eles lhe proporcionaram memórias, pois eles diziam: “eu sou isso! Eu sou aquilo!” “eu fiz isso! Eu fiz aquilo! ”Houve um momento em que uma das moças bonitas que trabalhavam lá começou a perguntar sobre as crises do pessoal. “Por que você está internado?” “por que você está aqui?” Os internos que estavam com ele relatavam seus casos: “eu bati na minha mãe!” “eu quebrei minha casa inteirinha!” Quando ela virou para ele e perguntou sobre seu caso ele apenas encolheu os ombros e disse: “eu não tenho a menor idéia... o que aconteceu? Por que estou aqui? ” “você não se lembra do que fez? ” Ele sinalizou que não, se perguntando, cada vez mais, o que tinha acontecido? “Quando sua família vier visitar você, pergunte a eles.”Então, ansioso, ele aguardava a visita de sua família, para que lhe contassem a história dele. A história de sua crise.

Quando a família dele veio a mesma moça bonita o lembrou de perguntar sobre a crise. Então ele perguntou. Um de seus irmãos lhe disse: “você estava muito agressivo!” A menção de “agressivo” o levou a uma outra memória: ora, a canela dele estava no curativo. Era um sinal de agressão. Agressão dele? Bem, ele podia se lembrar do momento em que ele se arremessou em algo de vidro, provavelmente, ali sua imaginação voava: vidros se estilhaçavam, mas parecia que se dissolviam em água. De repente, ele se via na praia, se afogando, talvez. Mas seu irmão foi muito conciso, breve. Ele apenas disse: “Estêvão, você estava muito agressivo.” Nada mais do que isso. Então ele poderia ter cometido qualquer tipo de agressão, qualquer tipo de violência. Isso o estava consumindo por dentro. Ele tinha que saber o que ele tinha feito. Tinha sido coisa séria? Os grilos amontoavam.

Mais tarde duas das mulheres que trabalhavam lá conversavam sobre ele. Uma das mulheres era aquela que lhe tinha perguntado sobre sua história: “então você não se lembra como veio parar aqui?” Quando ele sinalizou que não ela continuou: “você se lembra de como machucou a canela? ” “sim.” “claro!”, ela disse sorrindo, “a gente sempre se lembra de dor. Quando dói, ah! Aí não dá pra esquecer!” Elas sorriram com certa ironia. Ele retornou o sorriso. Mas ele sabia que ele não se lembrava de nenhuma dor. Porque dor física não pode ser comparada a dor psíquica. Ele não se lembrava de dor na canela, mas se lembrava da dor dentro da cabeça. A verdadeira dor.

Explicação breve do capítulo 2 de Os Casarões

O capítulo tenta deixar claro a confusão mental causada no momento que a pessoa volta do surto. E mostra como é espantosa a forma que os cuidadores dessas instituições psiquiátricas trabalham com a ideia que a pessoa, o paciente psiquiátrico, foi agressivo. E, infelizmente podemos constatar que quando esses profissionais tratam as pessoas como autores de violências as pessoas se sentem culpadas e ficam traumatizadas.

Hoje em dia está claro que a população de pacientes psiquiátricos cometem menos violência que a população que não é de pacientes psiquiátricos. Várias pesquisas já provaram isso.

O capítulo tenta mostrar também que, os profissionais de saúde mental buscam mostrar para os pacientes psiquiátricos seus ERROS e ensiná-los a viver com ar de professor. Em vez de apoiá-los e ajudá-los a superar todo o sofrimento e confusão que passaram e estão passando no momento da internação.

O capítulo também deixa claro o tipo de pergunta mecânica que esses profissionais fazem aos familiares: "Ele estava agressivo." Daí vem uma resposta já sugestionada: "Sim, muito agressivo".

E por fim, o capítulo busca mostrar o quanto aqueles que trabalham em instituições psiquiátricas muitas vezes ignoram a dor dos pacientes chegando a ironizar essa dor.

Eu fico por aqui.

PAZ E LIBERDADE

14.1.10

Experiências de um Paciente Psiquiátrico no Hospício

Abaixo deixo o primeiro capítulo da história OS CASARÕES, que eu havia publicado num site, que fechou. NOVAMENTE republico, assim republicarei o segundo capítulo amanhã e assim por diante.

A história é verídica e mostra a forma que o PACIENTE PSIQUIÁTRICO vê a maneira que ele é tratado lá dentro.

Espero que eu tenha feito uma boa retratação.

Astregésilo Carrano escreveu O Canto dos Malditos, livro fala sobre eletrochoque, e sobre a depressão que a pessoa experimenta ao sair das internações, provavelmente causada pelos psicotrópicos tomados.

(Observe que a depressão pós internação é atípica, diferente das depressões comuns geralmente relatadas.

Carrano retratou muito bem a depressão pós internação, mas infelizmente sua obra deixou uma lacuna, que preencho em OS CASARÕES. Carrano não escreveu muito sobre as alucinações, e sobre certos efeitos que podem ser do transtorno mental, ou da medicação. Cabe a todos nós estudar para descobrir a verdade.

OS CASARÕES



CONTOS DO CASARÃO - CAPÍTULO 1

Tudo que ele sabe é que ele é um ser, e que ele está enclausurado em algum lugar. Onde ele está? Será que ele está sonhando? Não pode ser real! Tem todo esse pessoal vestido de branco. Porém aquele pessoal de branco mantém distância dele e de outros seres. O pessoal de branco é cheiroso, porém ele e os outros seres que eram mantidos longe do pessoal de branco cheiravam mal. Não podiam usar perfumes caros, às vezes mal podiam escovar os dentes! Estaria ele no Céu? No Purgatório? Ou no Inferno? Tem um homem que senta à uma mesa, uma mesa luxuosa. Mandam-no à sua sala e lá ele o observa. Será que ele (esse homem) é Deus (e está lá para julgar seus pecados)? Tem portas no lugar, daí ele chega à conclusão de que está numa casa. Quando ele olha pela janela ele vê que é um casarão, um prédio talvez. Mas ele só pode ter acesso a alguns quartos, limitado a andar em um corredor de cerca de 10 metros. Não deixam que ele se aproxime das portas. Daí ele conclui que está preso. Ele quer saber quem ele é. Ele não conhece ninguém lá.

Ele não conhecia ninguém lá, mas as pessoas o chamavam pelo nome. Isso o fez se lembrar de que ele tinha uma família. Aquilo não poderia ser Céu de jeito nenhum. Havia gente ruim lá. Mas ele ainda estava torcendo para que aquilo fosse um sonho. À noite, propositalmente, ele caía da cama, tentando acordar do pesadelo. Veio uma memória de sua infância. Ele costumava cair da cama de propósito para escapar dos pesadelos. Mas desta vez não funcionou. Logo ele leu em seus lençois: Centro Psiquiátrico D. Pedro II. Ele tinha que se render à realidade. Ele tinha sido internado. Num hospício.

Mas por quê? O que ele tinha feito? Será que ele já era doente mental antes de ser internado? Será que ele tinha sido doente durante toda sua vida? Talvez sua família tivesse escondendo isso dele toda sua vida. Para poupá-lo. Se ele era um doente mental ele não sabia o que fazia. Sua vida não passava de uma loucura. Droga! Ele deveria saber! As pessoas sempre diziam que ele era maluco! Mas ele não acreditava que estivessem falando sério. Achava que estivessem brincando.Então tudo que ele achava que ele sabia era ilusão. Em sua vida ele estava sempre errado. Puxa! Eles o tinham internado! Ele não sabia por que, mas estava claro! Ele é louco! Alguém o tinha colocado lá, mas ninguém tinha lhe explicado por quê. Ele teve de descobrir sozinho onde ele estava!

E trouxeram-lhe drogas e mandaram-no tomar. Ele disse que não estava sentindo nenhuma dor e que queria saber para que servia aquele remédio. Mandaram-no calar a boca e tomar senão eles iriam perder a paciência. Como ele não queria apanhar, obedeceu. Afinal, eles eram violentos. Naquele lugar as mulheres eram mais ou menos boazinhas. Ele percebeu que as mulheres de branco eram mais agradáveis do que os homens de branco. Às vezes as mulheres de branco deixavam que ele lanchasse mais de uma vez. Às vezes ele podia até pegar dois, três copos de mingau, de uma vez! Os homens de branco insultavam-no todo o tempo. Às vezes não deixavam que almoçasse ou jantasse.

Depois de um tempo ele compreendeu que ele estava preso num hospital psiquiátrico e que as pessoas vestidas de branco eram enfermeiros, doutores, etc. Mas no começo, quando ele sequer se lembrava de que tinha uma família ele achava que as mulheres de branco estavam lá para ensinar-lhe a viver, discipliná-lo, enquanto que os homens estavam lá para puni-lo, fazê-lo pagar por algum pecado.

Explicação breve do Capítulo 1 de OS CASARÕES

Cada capítulo de OS CASARÕES foi publicado para chamar atenção para certos pontos do chamado tratamento que precisam ser mudados para que haja um tratamento de verdade.

Mas infelizmente notei certa insenbilidade nas pessoas que leram os capítulos. Por isso vou explicar cada capítulo, começando pelo primeiro.

Nesse capítulo eu tento chamar a atenção para a necessidade que me parece óbvia: ao internar alguém em um hospital psiquiátrico, ala psiquiátrica, enfim, É NECESSÁRIO explicar para esse paciente psiquiátrico O PORQUÊ ele está sendo internado, o porque ele está sendo mantido preso.

Depois a equipe desse hospital deve explicar para a pessoa o que é um tratamento psiquiátrico e porquê a pessoa tomará psicotrópicos.

Lógico que o psiquiatra deve explicar para o paciente psiquiátrico em internação para que serve cada medicação.

Enfim, tento chamar a atenção que uma pessoa pode até ser obrigada a tomar uma droga. Mas ninguém deveria tomar nenhuma substância estranha sem que alguém explique o que é tal substância. Pois forçar alguém a tomar algo que a pessoa nem sabe o que é não é apenas violação dos direitos humanos (ninguém deve ser forçado a fazer nada), mas praticamente transforma a pessoa num prisioneiro que engole aquilo que seu carcereiro dá, já que um enfermeiro nesses casos não passa de um carcereiro.

antes alguém no mínimo deveria explicar para o paciente psiquiátrico para que serve cada droga. Claro que logo que a pessoa ficasse lúcida, podendo se comunicar a pessoa deveria poder optar se quer ou não continuar internada, depois de ser informada dos riscos que correria caso abandone a internação, e dos riscos que correria caso abandone o tratamento.

Isso não quer dizer que eu acredite que haja riscos. Em certos casos talvez não haja. Estou apenas falando do direito que um indivíduo deveria ter assegurado, e que AINDA não tem.

Hoje em dia a lei garante que a pessoa deve receber explicações sobre seu tratamento, mas isso não é respeitado nem nos CAPS, imagine em hospitais psiquiátricos onde as pessoas são internadas muitas vezes contra a vontade.

A lei avançou (apesar de não ser respeitada), mas mesmo assim as pessoas ainda são internadas a força com respaldo da lei.

Que ao menos a proposta da Reforma Psiquiátrica seja respeitada, a proposta que buscava tornar lei que ninguém fosse internado por mais de sete dias. Infelizmente isso não virou lei.

Além do mais eu tento mostrar a forma estúpida que os pacientes psiquiátricos são tratados: como se estivessem sendo disciplinados. E tento mostrar as consequências que isso traz: a pessoa fica retraída, se sentindo culpada, etc.

Em um lugar em que se busca recuperar as pessoas mentalmente não deveria haver nenhum tipo de repressão. Pois senão a coisa tem efeito contrário e causa problemas mentais.

Fico por aqui.

PAZ E LIBERDADE.