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9.11.13

Institucionalização: suas consequências e vítimas

Esta é uma republicação de um outro blog, que foi publicada aqui em partes. Foi originalmente publicado em 4 de janeiro de 2010, numa segunda-feira.

Aquela mãe repetia “Meu paciente morreu, mas não tenho nenhum remorso. Sei que fiz tudo que poderia fazer.”

Eu me compadecia por ela, pois sabia que, no fundo, o remorso a consumia. Me compadecia, pois sabia que ela era uma boa familiar. Tanto que somente um bom familiar sentiria remorso, e continuaria lutando para que outros não tenham o destino de seu familiar, como essa mãe fazia.

E lamentava que, aquele rapaz que morrera, paciente psiquiátrico, tinha perdido a mãe antes de morrer. É que a mãe já não o via como filho, e sim como paciente. Ela só o chamava de paciente, e raramente de filho.

Aquela mãe tinha se tornado enfermeira do filho, psiquiatra, psicóloga, ou coisa assim. Não era mais mãe. E ele não era mais filho dela. Era paciente. Não era mais família. Aquele rapaz continuava internado mesmo quando voltava para casa da internação.

Esse é o HOSPÍCIO EXTERNO. O hospício fora da internação.

Agora eu vou contar minha experiência não do ponto de vista de um paciente psiquiátrico ou ex-paciente psiquiátrico. Mas sim do ponto de vista de familiar. Pois como já disse tenho familiares que morreram em instituições psiquiátricas.

Daí que de meu ponto de vista de familiar é claro que eu NUNCA poderia ter sofrido como meus familiares que morreram sofreram. E realmente seria hipocrisia dizer que sofri tanto assim como familiar. Como sei que ninguém da família sofreu como esses falecidos pacientes psiquiátricos da família.

O meu tio que morreu mais recentemente tinha crises constantes e por isso foi abandonado pela família, sendo largado nos hospícios da vida. Ele dava muito trabalho, pois tinha crises constantes.

Com a chegada das leis da Reforma Psiquiátrica, por volta de 2001, ele passou a morar numa residência terapêutica. Mas pelo que me disseram ele era acompanhado praticamente noite e dia por enfermeiros nessa residência terapêutica.

Enfim, essa não é a vida que eu ia querer para mim, e provavelmente você também não ia querer para você. Ele não tinha mais o afeto dos familiares, e praticamente foi condenado a um HOSPÍCIO EXTERNO, pois era monitorado por profissionais de saúde mental dia e noite.

E ele deve ter morrido com sentimentos de culpa. Deve ter pensado “poxa, eu fui um peso para minha família. Não valho nada.” Realmente esse é um dos piores destinos que alguém pode ter.

Quanto ao outro tio, o destino foi mais negro. Ele morreu no hospício. No início da década de 90. Quando estava bem longe de haver a Reforma Psiquiátrica, que fiscaliza UM POUCO os hospícios.

Ele era tranquilo. Estava domado. Se comportava bem. E quando começava a reclamar era internado rapidinho. Por isso suas internações eram constantes. Vivia mais no hospício que em casa.

Naturalmente quando ele morreu no hospício eu logo vi que era óbvio que aquilo não era morte natural. Não era tão ingênuo, apesar de jovem. Pensei que a família ia começar um protesto sério contra isso, mas quebrei a cara.

O que eu, um jovem que era tão pouco respeitado, poderia fazer contra isso? Decidi deixar para tomar providências anos depois.

Claro que na época eu suspeitava que aquela morte não tinha sido uma “complicação” natural. Na época eu ainda não tinha sido internado no hospício. Hoje eu tenho certeza que meu tio merecia um pouco mais de atenção na questão de sua morte.

Ele não morreu num SPA. Morreu num hospício. Talvez eu deva descrever como as pessoas que morrem no hospício são tratadas, a partir de minha experiência de internação.

Na hora do café da manhã, no sanatório, eu me espantei com uma cena de filme de terror. Enfermeiros, ou auxiliares de enfermagem levavam uma figura enfaixada. A figura parecia uma múmia.

Ao levar a figura os enfermeiros, volta e meia, batiam com a cabeça da figura no corrimão, por acidente. Riam, faziam piadas.

Eu já acreditava que aquilo era uma brincadeira de mau-gosto. Como poderia ser real? Mas para meu total terror, eu vim a saber depois que aquela múmia era um paciente psiquiátrico que tinha morrido. Tropeçou no banho!!! Se você visse a estrutura dessa figura você ia duvidar desse tropeção fatal, obviamente.

Claro que ficava cada vez mais claro para mim que lá dentro minha vida não valia nada. Uma pessoa morreu num hospício, dito hospital psiquiátrico, e nem uma perícia decente houve.

O corpo não deveria ser removido só pela polícia? O local da morte não deveria ser interditado? Não deveria haver uma investigação quanto a causa da morte? A polícia não deveria ir ao local? Nada disso aconteceu.

Ou será que alguém acha que paciente psiquiátrico não merece esses procedimentos que as pessoas “normais” têm?

A perigosa relação familiar/paciente psiquiátrico

Na verdade algumas pessoas ficam felizes em serem despejadas no hospício. Encontrei várias pessoas que estavam felizes de estarem internadas. É o caso de pessoas que estavam nas ruas, sem família, e foram recolhidas. Suas feridas foram tratadas, etc. Eles me mostravam grande satisfação.

Nas internações, o grande problema que eu observei foram os casos de pessoas que tinham sido internadas como punição da família. Uns diziam que tinham brigado com o irmão, ou com o pai, e por isso tinham sido internados. Não necessariamente o familiar que interna terá razão, mas ele tem o PODER de internar aquele com histórico de doença mental. E esse tipo de internação é uma violência da parte desses familiares.

Uma vez eu falei para uma conhecida minha que as mulheres que apanham dos parceiros repetidas vezes e não denunciam deveriam ser punidas junto com os parceiros, pois essa violência pode prejudicar os filhos também, que sofrem e se traumatizam com isso.

Daí ela disse que às vezes a mulher ama o parceiro e por isso não denuncia. Para mim ficou claro que ela era uma dessas mulheres que apanhavam do parceiro. Ninguém que ama pratica violência, nem suporta violência. Violência é o contrário do amor, e onde há violência, não há amor.

Daí que eu quero dizer que nenhum familiar que ama vai internar seu parente por punição ou por rancor. Internar desse jeito é uma violência. E quem ama não pratica violência contra seu amado.

E é claro que as pessoas que são internadas dessa forma ficam decepcionadas com a covardia, algumas se revoltam mesmo. Se revoltam também com a maneira em que se internam pessoas sem critério nenhum.

E a manifestação dessa revolta, infelizmente, em vez de ser considerado protesto legítimo, acaba sendo considerado doença mental...

(P.S.: não confundir as palmadas que um pai dá no filho pequeno, que é educação, com o ato arbitrário de internar um adulto como você como forma de punição.)

O que acontece dentro de um hospício/ hospital psiquiátrico que a sociedade não vê

Em primeiro lugar, muitos profissionais dos hospitais psiquiátricos praticam violência não por serem malvados, mas sim porque o local tem um PENDOR para violência, é convidativo para a violência. Praticamente uma escola de violência e bizarrices.

Para começar, o lugar é fechado. O hospício é fechado. O hospital psiquiátrico é fechado. O mundo exterior não vê o que acontece lá dentro.

E você não tem ideia da estrutura assustadora dos hospitais psiquiátricos! No Instituto Nise da Silveira, antigo Centro Psiquiátrico Pedro II, há tantos corredores que parece um labirinto. Você chega a se perder lá dentro!

É como se aqueles corredores fossem de propósito. Para que qualquer um que ouse tentar fugir se perca!!

Nesse tipo de lugar seria necessário câmeras. Câmeras para garantir a segurança. Câmeras de domínio público, que as imagens não fiquem só no hospital psiquiátrico.

Por mais boas que as pessoas sejam, a possibilidade de praticar um ato violento ou ilegal é maior quando se sabe que ninguém está vendo. Quando alguém morre os reais motivos são abafados.

E o que a sociedade não vê é uma violência como rotina. Uma violência que virou normal, num lugar de loucura.

As violências e suas consequências absurdas.

Um paciente psiquiátrico sem camisa bate com força contra um portão do hospício. Ele xinga. Quer chamar atenção para alguma coisa. Ou simplesmente provocar. Ele sai correndo e quando os carcereiros chegam, ou seja, quando os auxiliares de enfermagem chegam ele já fugiu.

Porém outra vez que ele bate no portão ele não é rápido o suficiente. Os auxiliares de enfermagem chegam, seguram-no e o levam para o castigo. Castigo, pois eles sabem que ele não está em crise. Está protestando.

E se estivesse em crise o mais certo seria levá-lo para o psiquiatra, ou para o enfermeiro chefe, que decidiria o que fazer para ajudar (e não para punir).

Qual é o castigo? A pessoa é amarrada na cama.

Um rapaz era amarrado com frequência como punição. Até que... ele passou a fazer algo que me arrepiava: toda vez que ele via algum dos outros pacientes psiquiátricos sendo amarrado ele pedia para ser amarrado também, com ciúme.

Ele chegava ao ponto de bater nas coisas, pedindo para ser amarrado.

__Amarra eu, tioooooo!!!!, ele gritava.

A cena de terror se alargava. Nada pior do que ver auxiliares de enfermagem amarrando pessoas com um sorriso no rosto de satisfação. Nada pior do que ver auxiliares de enfermagem disputando para ver quem tem o “prazer” de amarrar o paciente psiquiátrico.

Enfim, o que pude observar é que o hospício desenvolve comportamentos doentios, não apenas nos pacientes psiquiátricos, mas também nos profissionais que lá trabalham. Tratamentos fechados desenvolvem comportamentos doentios nas pessoas. Ao ponto de passarem a gostar de amarrar pessoas e de ser amarrado.

O relato do terror do hospício, o terror do tratamento fechado (Não fique indiferente!)

Aqueles auxiliares de enfermagem eram jovens, como você já deve ter imaginado. Os enfermeiros de verdade eram mais velhos. Um deles sequer sujava suas mãos amarrando os pacientes psiquiátricos. Outro já me amarrava PESSOALMENTE quando eu estava “enchendo muito o saco.”

No hospício de Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, tinha um pessoal especial para amarrar as pessoas. O “pessoal da contenção”. Eles até sabiam amarrar sem oferecer perigo para a vida das pessoas.

Porém, no hospício de Piedade (Rio de Janeiro) quem amarrava eram os auxiliares de enfermagem.

Por serem muito jovens, e naturalmente despreparados para lidar com pessoas naquelas condições, aqueles auxiliares de enfermagem chegavam a ser perigosos, pois amarravam as pessoas sem uma supervisão sequer, de qualquer maneira.

Quando já era animalesco amarrar, amarrar de qualquer maneira gerava risco de morte e de infecções.

Qualquer oposição contra aquele pessoal do hospício de Piedade era motivo para amarrar na cama. Toda oposição era abafada.

Aqueles auxiliares de enfermagem não eram maus, mas sim despreparados. As ameaças que eles faziam eram mais assustadoras que as ameaças de alguns criminosos que havia encontrado na vida, antes de ser internado.

Comum ouvir desse pessoal frases como “Ou vai por bem, ou vai por mal”, isso quando alguém queria resistir ao castigo da amarração.

Uma vez, ao tentarem me amarrar, eles se irritaram com minha resistência e ameaçaram: “Está vendo essa sua cicatriz? (apontaram para a cicatriz que tenho na mão direita.) Se você continuar resistindo vamos fazer outra cicatriz como essa na outra mão.

Eles não estavam brincando. Ou eu respondia violência com violência, ou cedia. Devido a minha crença de não violência preferia ceder. Pois se fosse para continuar resistindo eu ia ter que considerar matar meus agressores.

E realmente esse tipo de violência eu não queria. Tanto por saber que no fundo eles não tinham culpa. Pois aquela violência já tinha virado natural para eles, por trabalharem num lugar como aquele.

Com certeza aqueles auxiliares de enfermagem chegavam a agredir pacientes psiquiátricos a socos. Agrediram a mim, como agrediram a outros. Isso para não falar das vezes que fomos enforcados no hospício. Mas eles sequer percebiam a violência disso.

Realmente eu podia ver que eles viam aquilo como uma correção normal. E aceitável. Esses auxiliares de enfermagem precisavam mais de ajuda que de repressão. O que tem que ser suprimido da face da terra é essa forma de explorar as pessoas colocando vidas em risco.

Em um dado momento um auxiliar de enfermagem descobriu um jeito eficiente de me deter enquanto eu dificultava que ele me amarrasse. Os outros auxiliares já tinham ido. Ele estava tentando acabar de amarrar um de meus braços.

Para acabar com minha resistência e ficar com as mãos livres para me amarrar ele simplesmente meteu o cotovelo na minha garganta e prosseguiu me amarrando. Naturalmente eu comecei a ficar sem respiração e poderia morrer ali.

Daí que comecei a gritar para ele “Você já me matou! Pare!” ao ouvir minha voz sufocada, ele se deu conta. Naturalmente tentei gritar com a voz sufocada mesmo, pois sabia que se continuasse naquela posição acabaria morrendo.

Dessas experiências, naturalmente, eu posso imaginar como meu tio realmente morreu no hospício. Porque, se eu morresse ali, infelizmente não haveria nenhuma investigação para descobrir como eu morri.

Nenhum familiar ia tentar protestar para que houvesse uma investigação. Diriam que eu tropecei e caí, e pronto. Caso resolvido. Quem ia se preocupar em descobrir a verdade?

Nas amarrações, feitas de qualquer de maneira, os pulsos ficavam machucados. O que poderia causar uma infecção.

As amarrações não eram forma de tratamento de forma alguma. Que ninguém seja hipócrita em defender tal ideia! Eu ficava amarrado a noite toda, frequentemente, pois eu estava realmente revoltado contra aqueles absurdos.

Eu os contrariava sempre, e cada vez que os contrariava era amarrado na cama.

E naturalmente não conseguia dormir, pois é muito difícil conseguir dormir amarrado. Pergunte a outros que passaram a noite amarrados na cama.

Que medida terapêutica seria forçar alguém a passar a noite sem dormir?

Quando era amarrado antes do jantar ficava sem comer nada até o dia seguinte, quando era solto. Quando era amarrado antes do lanche da tarde ficava sem comer até o dia seguinte.

Essa era a lei.

E ao ver a indiferença de alguns familiares quanto aos abusos daquele hospício eu realmente podia sentir como meu tio deve ter sentido ao morrer no hospício. Como muitos outros que morreram em hospícios se sentiram.

Entenda que meu tio morreu em 1993. A internação que eu descrevo aqui foi em 2001.

Agora veja: as condições em 1993 eram bem piores que em 2001.

Em 2001 já existiam Centros de Atenção Psicossocial no Rio de Janeiro (CAPS).

Em 1993 a situação estava bem feia.

Não havia CAPS nenhum no Rio.

Só projeto.

Eu fui internado no município do Rio de Janeiro. Meu tio foi internado na Baixada Fluminense, fora do município do Rio de Janeiro. Comparado as condições dos hospícios da Baixada Fluminense o Sanatório de Piedade, onde fui internado, era o paraíso.

Acho que não preciso explicar que o município do Rio de Janeiro recebe mais recursos que os outros municípios. Afinal, é a capital, cartão postal do Brasil.

Ao escrever o título O TERROR DO TRATAMENTO FECHADO me vi num dilema. Afinal, aquilo não era tratamento, nunca. Mas eu coloquei o título TRATAMENTO, pois achei que deveria sugerir que houvesse um tratamento de verdade no futuro, em estruturas abertas, acolhedoras.

Derrubando os muros e labirintos do hospital psiquiátrico

Os CAPS de hoje são estruturas bem mais abertas, mas ainda mantém um pouco do afastamento que os hospitais psiquiátricos tinham. Para entrar num CAPS é muito difícil. Mesmo eu, que sou usuário de CAPS, tenho dificuldade para entrar em outros CAPS. É uma estrutura muito fechada ainda.

Os CAPS na prática não trazem a comunidade para si, como sugere seu projeto original. Por isso eu dou grande valor ao trabalho que o CDI (Comitê para Democratização da Informática) tem desenvolvido nos CAPS e em alguns hospitais psiquiátricos.

Foi muita audácia e coragem do CDI entrar nesse universo fechado da saúde mental e levar esperança para todos aqueles pacientes psiquiátricos e ex-pacientes psiquiátricos, além de ajudar a diminuir os preconceitos e o estigma. Pois a comunidade entra nos CAPS, como nunca foi possível, e vê a nossa realidade.

Saúde mental: direito de todos, problema de todos (Conclusão)

Pena que nesse meu trajeto me deparei com gente que ganha dinheiro com o que aconteceu e acontece nos hospitais psiquiátricos. Gente exploradora.

Também me deparei com gente que se promove politicamente. Me deparei com gente indiferente e muito política.

Gente que mente e manipula, “pelo bem da saúde mental”, essa gente tenta justificar.

E, infelizmente me deparei com gente que está disposta a destruir quem atrapalha seu lucro com doença mental.

No caminho vi gente com objetivos sinceros e humanitários, cuja voz foi silenciada, ou ignorada como sem importância.

Infelizmente, em meu trajeto, fiz inimigos. Gente que mente e faz calúnias a meu respeito. Por que, eu não sei.

Mas por isso eu estou aqui. E eu sei que minha causa, que é justa, prevalecerá, a justiça prevalecerá. Naturalmente não sou ator, nem celebridade. Não sou poeta. Não sou artista. Não sou carismático. Não sou simpático. Sei da solidão de minha luta. Sei do perigo.

Mas também sei que as pessoas sabem se unir pela luta pela liberdade. E sei que em seu tempo essas pessoas estarão lutando pela liberdade das pessoas que enfrentam doença mental com tanta força que essa deixará de ser minha luta.

As pessoas lutarão por tratamentos mais sérios, mais democráticos. Não haverá mais o monopólio dos psicotrópicos. As pessoas perceberão que ninguém pode ficar a margem da sociedade. As pessoas lutarão por mais integridade e inclusão social de todos.

E TODOS nesse caso incluirá os pacientes psiquiátricos e ex-pacientes psiquiátricos que não precisarão esconder seu passado para conseguir um emprego. Será uma luta popular.

As pessoas perceberão que doença mental não é coisa de alguns poucos, como pessoas que ganham dinheiro com saúde mental tentam nos fazer acreditar, mas sim um problema de todos, que todos estão sujeitos.

Será uma luta mais forte que o Movimento Negro e que o Movimento Gay, porque nem todos podem ser negros, e ser gay PODE ser uma opção. Mas a doença mental pode afetar qualquer um, gay ou negro, ou de qualquer cor ou naturalidade.

(Doença mental nunca foi um problema que afeta determinada raça. Mesmo em paises onde há segregação, como os Estados Unidos, dificilmente pode haver famílias sem casos de doença mental, pois é óbvio que as pessoas se misturam. E mesmo se fosse verdade o papo de doença mental ser genética ou hereditária, é claro que a essa altura da humanidade todas as famílias do mundo já têm casos de doença mental.

Talvez alguns tenham vergonha de admitir, talvez alguns desconheçam. Pois não houve nenhum controle para que quem tenha caso de doença mental não se relacionasse sexualmente com quem não tem caso. E a doença mental não aparece como uma chaga no pênis de alguém. Às vezes é mais discreta, como na forma de uma distimia.)

As pessoas não terão mais vergonha da doença mental. A doença mental então deixará de ser discriminada.

Aí sim haverá uma revolução. Uma revolução de verdade, onde a hipocrisia não terá vez.

Assim finalizo esse documento. Por um mundo melhor.

25.6.13

Por que internações psiquiátricas são tão longas

Internações psiquiátricas são longas por motivos econômicos.

  • O psiquiatra consulta cada paciente apenas uma ou duas vezes por semana. Se um psiquiatra consultasse os pacientes internados todos os dias, o tratamento seria melhor e o paciente poderia sair de alta hospitalar muito mais rápido.
  • Com um número mínimo de psiquiatras num manicômio, gasta-se menos com pacientes psiquiátricos.
  • Quando um paciente psiquiátrico está internado, a prescrição de psicotrópicos é muito maior. Psicotrópicos custam DINHEIRO.
  • No caso dos manicômios públicos, o dinheiro que paga pelos psicotrópicos vêm dos cofres públicos e vão para as grandes indústrias farmacêuticas e para os psiquiatras corruptos. (Não quero dizer que todos os psiquiatras são corruptos, mas com certeza HÁ psiquiatras corruptos nesse esquema.)

Por isso vamos lutar para que haja uma substituição dos psicotrópicos por um tratamento baseado numa alimentação correta, segundo a MEDICINA ORTOMOLECULAR. Substituir os psicotrópicos por um tratamento baseado numa alimentação correta tem dois benefícios incríveis: isso vai acabar com a corrupção na saúde mental que acontece através das prescrições abusivas de psicotrópicos; e diminuirá a fome no mundo.
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24.6.13

Minha maratona de internações em 2001

Em 25 de janeiro de 2001, fui internado no manicômio Pedro II, hoje chamado de Nise da Silveira. De lá fui transferido para o manicômio Clínica Santa Edwiges. Eu tinha feito matrícula numa escola e por causa da internação pedi uma declaração médica para justificar minhas faltas. Pedi que familiares entregassem a declaração na escola. A declaração nunca foi entregue. No dia 13 de março eu tive alta.

No dia 14 de março fui novamente internado no manicômio Pedro II. Permaneci nesse manicômio até o dia 01 de abril, quando recebi alta. Nessa noite de 01 de abril pude assistir o Troféu Imprensa do SBT.



Na segunda-feira, 02 de abril, fiquei em casa. Porém, na terça-feira eu fui à escola estudar. Voltei à escola no dia 04 de abril. Um de meus irmãos parecia estar querendo me internar de novo, com um papo muito estranho. O acompanhei ao manicômio no dia seguinte, mas o psiquiatra lhe disse que manter pessoas internadas não era a melhor coisa, e que existiam hospitais-dia, que seria melhor. Devido àquela insistência de meu irmão, fiquei pensativo, e na hora da escola acabei vagando pelo bairro. No dia 06 ou 07 de abril, meu irmão acabou conseguindo me internar no manicômio chamado Sanatório Rio de Janeiro. E dessa forma, quase que eu perco minha vida naquele maldito manicômio. Tive alta no dia 18 de junho de 2001. Quase três meses depois.
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6.4.13

Saí do manicômio com uma mão na frente e outra atrás

Desde minha primeira experiência como paciente psiquiátrico, pude ver as falhas nos diagnósticos. Ninguém NUNCA levou em consideração o que eu falei de meus surtos e crises, na verdade mal me deixaram falar. Ora, eu já era um indivíduo muito bem informado, e eles me trataram como um idiota incapaz. Daí dá para imaginar como eles tratam várias pessoas mais simples que vão parar no hospício.

Esse foi o primeiro erro do sistema psiquiátrico que observei. Através desse erro, pude DIAGNOSTICAR uma série de outros erros, que tenho mencionado aqui em diversas oportunidade. Como explicar a falta de tratamentos mais avançados e seguros, como psiquiatria ortomolecular, por exemplo? Não é possível COMERCIALIZAR a psiquiatria ortomolecular, que é baseada em alimentação, essa é a resposta: interesses financeiros. Psiquiatria ortomolecular não dá o lucro que os psicotrópicos dão.

Ao sair do manicômio, eu tentei explicar para a família que esses preconceitos que eles têm contra pacientes psiquiátricos é infundado. Pacientes psiquiátricos não devem ficar presos, como aconteceu com outros familiares que morreram no manicômio.

Apesar de eu já ter deixado mais do que evidente que qualquer uma das pessoas internadas no manicômio podem produzir muito, ainda encontro gente tentando provar o contrário, pois provando o contrário se justifica rotular pessoas como indivíduos de mentes irrecuperáveis e explorá-los até a morte.

Quero lembrá-los mais uma vez que meu caso foi PIOR que a maioria dos casos que encontramos no manicômio, mesmo assim depois de sair do manicômio dei aulas de Esperanto, de informática e fiz esse blog, muito útil, com certeza. Não seja vaidoso de achar que poderia passar pelo que eu passei. Eu não fui forte. Apenas tive a sorte de ter sido um atleta desde garoto. Você acha que você resistiria? Você consegue fazer flexões com dois dedos? Eu já fazia isso com 14 anos de idade.

NINGUÉM que passou por surtos iguais aos meus voltou para contar história, nem poderia; pois eu era um ATLETA, me preparava para competições e competia. Poucas pessoas resistiriam o que eu podia resistir mentalmente e fisicamente. Da mesma forma não aconselho ninguém a tentar fazer o que eu faço hoje em dia, pois eu CONTINUO sendo um atleta. Nunca deixei de ser. Com minha disciplina de atleta, sequer engordei com todos os psicotrópicos que tomei por anos. Minha estrutura de atleta que me permitiu resistir às sequelas da retirada da medicação. Eu não tive nenhum apoio. Não tenho dinheiro para isso.

As pessoas que já acessaram este blog, opinando, criticando, e mesmo insultando e xingando, fizeram dele uma ferramenta de cidadania. Agradeço a cada uma dessas pessoas. Espero continuar escrevendo o blog, mas as "modernidades" da Internet têm dificultado isso bastante. Estão querendo pegar número de telefone celular para "segurança". Se exigirem isso, talvez eu não possa mais escrever, pois não tenho telefone. Mas vamos ser otimistas que a tecnologia não regredirá a esse ponto.

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25.3.13

Saindo do hospício: "Estou complicado!"

Ao sair do manicômio há doze anos atrás, vi que eu estava ferrado, pois sabemos que os preconceitos e a discriminação condenam um egresso de hospício. Uma pessoa tem mais chances depois de sair de uma prisão de segurança máxima. É um absurdo, mas é verdade. Uma verdade triste.

Ao sair do hospital psiquiátrico no ano passado, evidentemente sabia que estava numa complicação dos infernos, estava MAIS FERRADO QUE NUNCA. Mas ao mesmo tempo, estava mais determinado que nunca.

Naturalmente meu caso é peculiar. Não se assemelha em absoluto com casos de transtorno bipolar ou depressão, ou a maioria dos casos de esquizofrenia.

Há 12 anos atrás, depois de meses internado, eu ouvia o psiquiatra e a assistente social falando sobre como convencer a família a me aceitar de volta, pois dois de meus "irmãos" estavam se empenhando ao máximo para que eu ficasse internado para sempre, eles tinham certeza de que eu jamais me recuperaria. O outro "irmão" me dizia que era melhor eu ficar morando no manicômio, pois a família era muito pobre, precisavam economizar. (E depois eu descobri que eles já tinham gastado todo o dinheiro que estava na minha carteira, que eu tinha ganhado nos últimos trabalhos.) Ainda bem que mães não são frias como "irmãos", senão este blog não existiria hoje em dia, e aulas de Esperanto não seriam dadas em algumas comunidades pobres, aulas de informática não seriam dadas a pacientes psiquiátricos gravíssimos.

Eu nunca soube de nenhum caso de surto psiquiátrico como os que eu tinha tido até então. Eu virei minha casa de cabeça para baixo no primeiro surto, virei a vizinhança de cabeça para baixo no segundo e virei um dos bairros mais famosos do planeta de cabeça para baixo no terceiro. Mas apesar de tudo eu fui me recuperando gradualmente. Ao passar do tempo fui controlando os surtos pouco a pouco, até controlá-los totalmente na ÚLTIMA VEZ, em 25 janeiro de 2012. Dessa última vez cheguei ao ponto de poder falar com o pessoal do manicômio, pedi água, pedi que medissem minha pressão...

Assim, talvez esses "irmãos" tivessem razão em querer me afastar da sociedade, se não fosse pelo fato de eu ter tido recaídas por causa do mau atendimento da saúde mental pública. É muito fácil para uma família jogar uma pessoa num manicômio público e dizer que a pessoa reclama do mau atendimento por estar maluca. E é claro que os profissionais de saúde mental pública vão concordar com essa família!

Essas três internações que eu descrevi foram as internações necessárias. Mas além dessas três internações, fui internado uma vez depois de um surto grave por causa de um erro médico, pois me mandaram para fora do manicômio apesar de eu ter dito que não estava dormindo bem; e fui internado outras duas vezes quando não era necessário e de maneiras totalmente abusivas.

Pretendo colocar em publicações seguintes a prováveis causas de pessoas acometidas de doenças mentais ter recaídas que as levam a internações. E, infelizmente, psicotrópicos prescritos a longo prazo são uma das principais causas de recaídas de pacientes psiquiátricos.

Não fique espantado, pois quando eu colocar minhas experiências pessoais como paciente a coisa ficará evidente.
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24.1.13

Internamento involuntário num hospital psiquiátrico acaba com o direito a fala (Comentários sobre "Os Casarões" / "A Foggy Life")

Quando fui internado involuntariamente perdi o direito de falar. No hospital psiquiátrico, nunca me perguntaram como eu estava me sentindo. E todo diagnóstico foi baseado no que os familiares falaram. Perdi o direito de falar sobre mim mesmo. Tive que lutar para conquistar esse direito de novo, pouco a pouco, depois que saí da primeira internação involuntária. Mas a luta continua, ainda há muito caminho a galgar.

Quando eu estava internado na Clínica Santa Edwiges em 2001, antes de sair de alta hospitalar, informei ao psiquiatra de plantão que eu não tinha conseguido dormir nas três últimas noites, e disse que talvez fosse melhor adiar a alta devido a isso. Saí de alta assim mesmo, e as consequências dessa alta é o que vou comentar em seguida. Eu voltei a ser internado no mesmo dia em que saí de alta.

Cerca de dois anos depois um psiquiatra perguntava a minha mãe sobre o surto que eu tive logo que saí de alta da Clínica Santa Edwiges. Ele perguntou se eu falava sobre sexo no surto. Totalmente sem jeito minha mãe disse que sim. Daí ele perguntou, "Falava sobre sexo com homem ou com mulher?" Acho que nem preciso explicar como minha ficou ao ouvir essas perguntas, ainda mais que ela é evangélica, tem sido desde que nasci. E eu fiquei me perguntando qual era a importância dessas perguntas para fazer um diagnóstico.

Mas a resposta de minha mãe me surpreendeu: "Falava de sexo com homem e com mulher," Eu achei muito estranho, pois não me lembrava de nenhum homem com quem gostaria de fazer sexo. Depois minha mãe disse que eu tinha falado de sexo com irmãos, lembranças do tempo em que fui abusado sexualmente, com 9 anos. Foi abuso sexual, sim, pois apesar de um dos irmãos ser apenas 2 anos mais velho, o outro era 5 anos mais velho que eu. Nesse caso, caracteriza-se abuso sexual, SIM.

Quando um adolescente faz sexo com crianças se caracteriza abuso sexual. Não foi "troca-troca" ou "meinha" pois eu não sabia NADA sobre sexo, nem sabia como crianças vinham ao mundo e só vim a saber meses depois do abuso. Eu pensava que crianças nasciam através de sexo anal, pois foi o que meus "irmãos" me disseram, para me convencer que isso era normal. E esse irmão mais velho foi preso abusando de crianças quando se tornou adulto.

Contei o encontro entre minha mãe e o psiquiatra no meu antigo site em inglês:
A FOGGY LIFE, no capítulo "UNDER PRESSURE". Pretendia traduzir o capítulo "UNDER PRESSURE" ao português, para inserir em OS CASARÕES, onde relato minhas experiências nos manicômios mas acabei não o fazendo.

Tive esse surto, em que minha mãe teve que me ouvir falando sobre sexo com irmãos porque o psiquiatra não quis ouvir quando eu disse que talvez fosse melhor adiar a alta.

Sobre a postura inconveniente do psiquiatra que falou com minha mãe, sobre o abuso sexual, e porque decidi escrever sobre isso eu falo em seguida. E pode ter certeza: não escrevi para desabafar.

Para ver a continuação clique aqui

19.1.13

Rotina infernal de hospital psiquiátrico - Que raios de desinstitucionalização é essa???

Padecer com um transtorno mental já é um inferno; mas não importa qual for seu sofrimento psíquico, esse sofrimento seria pior se você fosse internado involuntariamente num hospital psiquiátrico; e seria ainda bem pior se você fosse abandonado num hospital psiquiátrico, tendo que viver lá.

Internações em hospitais gerais seriam algo benéfico para os pacientes psiquiátricos e para a sociedade em geral. Só não seria benéfico para aqueles profissionais de saúde mental pública politiqueiros que exploram a doença mental.

Como coloquei antes, quem mantem hospitais psiquiátricos públicos não está preocupado com a saúde do paciente. Tanto que medicação psiquiátrica nunca falta, mas faltam creme dental e escovas, faltam outros cuidados médicos básicos.

Estive em hospitais psiquiátricos em que havia homens e mulheres internados, num mesmo ambiente. E também estive em hospitais psiquiátricos onde só se internava homens. Nos hospitais psiquiátricos em que havia homens e mulheres internados no mesmo ambiente, era proibido "namorar", praticamente era proibido paciente homem chegar perto de paciente mulher. Os pacientes ficam abandonados, mas tomam todas as precauções para que pacientes homens não cheguem perto de pacientes mulheres, e para que pacientes mulheres não cheguem perto de pacientes homens.

Essa proibição NÃO era para garantir a segurança das mulheres, pois sempre foi comum psiquiatra homem atender paciente mulher sozinho, entre quatro paredes. A proibição era para garantir a segurança do hospital psiquiátrico. Para evitar qualquer relacionamento entre pacientes homens e pacientes mulheres, para que não houvesse nenhuma GRAVIDEZ dentro do manicômio / hospital psiquiátrico, que seria um escândalo. Nos hospitais psiquiátricos em que só se internam homens, pude observar que não havia nenhuma proibição de relações sexuais... na verdade, chegavam a incentivar relacionamentos homossexuais.

Exemplos: na Casa de Repouso Santa Edwiges de Sepetiba, um auxiliar de enfermagem incentivava dois pacientes HOMENS a se beijarem, e outras coisas.

No Centro Psiquiátrico Pedro II, inclusive havia prostituição no setor onde eu estava internado: um rapaz homossexual assumido cobrava um real. Todos sabiam, exceto talvez, os psiquiatras e psicólogos que só entram nas enfermarias dos hospitais psiquiátricos uma ou duas vezes por semana, para as consultas semanais. O pessoal da enfermagem ficava rindo dos pacientes que eles sabiam que tinham tido relações com o rapaz homossexual.

Nota: as relações sexuais eram perigosas: não há camisinha nos hospitais psiquiátricos.

Relações homossexuais também eram incentivadas no Sanatório Rio de Janeiro, que, diga-se de passagem, é o pior manicômio do município do Rio de Janeiro, e continua aberto até hoje.

Como já disse, hospitais psiquiátricos públicos continuam existindo simplesmente por interesses políticos e acadêmicos. Ou melhor, manicômios só continuam existindo por interesses acadêmicos e políticos, já que instituições como o Instituto Philippe Pinel e o Instituto Nise da Silveira nunca foram hospitais, sempre foram manicômios.

Definição de manicômio do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o melhor online:

manicômio
(mani[a] + -cômio)
s. m.
Hospital para internamento de doentes mentais. = FRENOCÔMIO

» Grafia em Portugal: manicómio.

Toda a propaganda internacional de desinstitucionalização não passa de politicagem. Pura manipulação. Se houvesse, de fato, desinstitucionalização, grandes manicômios públicos teriam fechado, ou melhor, teriam sido IMPLODIDOS, por serem uma vergonha para a espécie humana. Mas a única coisa que aconteceu é que mudaram os nomes.

Exemplos:

Bedlam Insane Asylum foi criado no final da idade média, em 1247, em Londres, e continua aberto até hoje, apenas recebeu um novo nome: Bethlem Royal Hospital. Bethlem Royal Hospital é o mais antigo manicômio da Europa.

O manicômio estadunidense New Jersey State Lunatic Asylum foi criado em 1848 e depois passou a se chamar Trenton Psychiatric Hospital, mas continua aberto, a mesma coisa.

A mesma manipulação aconteceu no Rio de Janeiro. O primeiro manicômio do Brasil e da América Latina foi o Hospício de Pedro II, que foi criado em 1852, na Praia Vermelha, Botafogo, R.J. Depois transferiram o nome Pedro II para o Hospício do Engenho de Dentro, que se chamava Colônia Gustavo Riedel e passou a se chamar Centro Psiquiátrico Pedro II.

Eu sei que é confuso. Manicômios são manobras políticas, e manobras políticas têm como objetivo confundir a população.

Depois de uma manobra política, o que se chamava Hospício de Pedro II, em Botafogo, passou a se chamar Instituto Philippe Pinel.

O Hospício do Engenho de Dentro foi criado em 1911, e continua aberto, apenas mudou de nome: atualmente se chama Instituto Nise da Silveira; mas já teve vários nomes em sua história: Colônia de Alienadas do Engenho de Dentro, Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro, Colônia Gustavo Riedel, Centro Psiquiátrico Pedro II, e por fim, hoje se chama Instituto Nise da Silveira.

O estratagema usada por esses indivíduos que lucram com a existência de manicômios é trocar os nomes para confundir a população.

A extinção de todos os manicômios supra-citados é um de meus objetivos de vida.

10.1.13

Rotina de hospital psiquiátrico: inferno dos infernos

Ao escrever sobre internações em hospitais psiquiátricos, aparentemente não fui bastante claro. Ainda escuto pacientes psiquiátricos dizendo que gostariam de ser internados para SEMPRE para se livrar da rotina da vida ou para se livrar da perturbação sofrida em casa, etc.

As pertubações apenas seriam trocadas. Por perturbações bem piores.

Daí vejo que não fui bem claro na descrição dos malditos hospícios, não fui claro na descrição dos hospitais psiquiátricos. Quando a gente está lá dentro, chegamos a ter pavor de passar o resto da vida lá. Naturalmente estou falando de quem é internado involuntariamente.

Vou apenas descrever algumas situações-chave:

Já percebeu que pacientes que moram em hospitais psiquiátricos geralmente não têm dentes? Acho que você já percebeu. O que você não deve saber é que muitas vezes eu tive que ficar sem escovar os dentes no hospício. Tinha medicação, mas escovar os dentes não é importante para quem mantem um hospital psiquiátrico público. Quando a família trazia pasta e escova dias depois, várias pessoas vinham pedir creme dental para que pudessem escovar os dentes com os dedos.

Em uma internação num hospital psiquiátrico melhor, havia um creme dental e uma escova que ficavam acessíveis aos pacientes. Assim, nós pacientes psiquiátricos compartilhávamos creme dental e... compartilhávamos escova dental. Não precisa me lembrar do risco de infecção. Para todos os efeitos, nosso medo maior era ficar sem dentes, como os moradores antigos do hospital psiquiátrico. Portanto, se você pretende morar num hospital psiquiátrico, pode ir dando adeus aos seus lindos dentes.

Aliás pode ir dando adeus a várias mordomias da vida moderna. Ao entrar num hospício, você volta a antiguidade da humanidade. Quando você sentir vontade de comer alguma coisa, pode esquecer. São três refeições diárias, nada mais. E com a medicação, sua fome triplicará. porém, mal conseguirá comer, pois estará tão dopado que quase não conseguirá mastigar.

Portanto prepare-se para ver pessoas mexendo no lixo, em busca de restos para saciar a fome. Não cheguei a esse ponto, pois recebia coisas nas visitas. As pessoas que foram abandonadas no hospital psiquiátrico público não recebem.

Se você for fumante, pode ir se preparando para disputar guimbas de cigarro com outros pacientes fumantes. Aliás, quando sentir fome, pode comer filtros de cigarros ou restos de fósforos. São de fácil mastigação. (Sim. Já experimentei.)

Já fique sabendo que qualquer reclamação é penalizada. A pena é ser amarrado na cama até ficar "bom".

Você já deve ter visto psiquiatras e psicólogos metidos a comediantes, fazendo piadinhas com doença mental, que eles chamam de loucura para ficar engraçado. Piadinhas do tipo, "eu também sou louco, só não tomo medicação" ou "Meus pacientes me dizem que sou um bom psiquiatra / psicólogo, mas não posso confiar no que eles dizem, pois eles são loucos." Pode ter certeza que quem foi internado num hospício por meses NÃO acharia graça dessas piadinhas. Não achariam graça porque não são loucos, são doentes.

Você deve ter percebido que eu falei de moradores de hospitais psiquiátricos. Pois é. Ainda hoje em dia pessoas MORAM em hospitais psiquiátricos. Assunto para outra ocasião.
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17.12.12

Os perigos dos hospitais psiquiátricos fechados e longe dos olhos do povo

Recebi uns comentários muito importantes e que valem a pena replicar.

A filha de Nercinda Heiderich morreu depois de oito dias de internação numa clínica psiquiátrica. Isso realmente dói.

Ela havia tentado falar com a filha, mas foi proibida por "regulamento da clínica".

Ela diz no comentário: "Eles não permitem que entremos nos alojamentos, somente até o pátio de visitação e depois, de pelo menos, 5 dias."

É um absurdo que esse hospital psiquiátrico continue aberto depois de um caso desses.

E aconteceu algo mais absurdo ainda: a mãe ficou desesperada e fez acusações contra o dono da clínica. Resultado: o dono da clínica se sentiu ofendido e decidiu processá-la. Que tipo de monstro tem coragem de processar uma mãe que perdeu a filha dessa maneira trágica?

Familiares de pacientes psiquiátricos, prestem a atenção:

Precisamos URGENTE de uma Lei que garanta o direito do familiar ter acesso ao paciente internado SEMPRE.

Enquanto essa Lei não existe, RETIRE o paciente do hospital IMEDIATAMENTE caso não deixarem vê-lo.

No próprio CAPS eu já soube de pacientes que abusaram sexualmente de outros, e eu garanto que num hospital psiquiátrico fechado o risco É BEM MAIOR.

Gente, preste atenção, há casos de psiquiatras que abusaram sexualmente de pacientes psiquiátricos em outros países, e foram presos por isso, mas é muito difícil um psiquiatra que comete abuso ser julgado e preso, pois bastaria ele dizer que a paciente falou sobre abuso por estar delirando, imaginando coisas. E infelizmente, a palavra do psiquiatra tem mais poder que a palavra do papa.

Psiquiatras têm um poder que nenhum ser humano deveria ter. O poder de decidir quem está com a RAZÃO e quem não está, afinal, na nossa cultura quem está louco PERDEU A RAZÃO.

Por isso, pacientes psiquiátricos deveriam ser internados em HOSPITAIS GERAIS. Por isso que enfermarias psiquiátricas devem estar a vista do público, nada de enfermarias psiquiátricas fechadas! A vista do público para que o público geral possa inspecionar e rejeitar abusos, e não para exibição, como acontecia nos manicômios de antigamente.
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13.11.12

Do hospital psiquiátrico para o CAPS = Da frigideira para o fogo!

Do hospital psiquiátrico para o CAPS = Da frigideira para o fogo. Depois de denunciar as graves falhas dos CAPS por anos, essa foi a sensação que tive ao voltar ao CAPS.

Mesmo totalmente sem dinheiro e sem nenhuma perspectiva, recusei continuar trabalhando no projeto da Secretaria de Saúde e Defesa Civil dentro das instituições psiquiátricas.

Ora, se eu continuasse trabalhando dentro de instituições psiquiátricas, eu teria um dinheirinho, é verdade, mas teria uns impedimentos terríveis. Eu ia ter que ficar na encolha, eu ia ter que entrar nos ESQUEMAS.

Foram várias as vezes em que vieram me intimidar por eu denunciar coisas erradas na instituição em que eu trabalhava.

Foi a gota d'água quando, logo depois de eu fazer reclamações na assembleia do CAPS, fui informado de que estava proibido de fazer certas coisas no CAPS. Fala sério!

A forma de seleção de diretores, coordenadores e supervisores de CAPS é muito desorganizada, portanto eu sequer poderia culpar a direção do CAPS, pois sei que fizeram isso por puro despreparo e por não estar a altura do serviço.

Mas não adiantaria eu mudar de CAPS, pois os gestores são os mesmos! E esse é um problema de gestão. Enquanto não mudar lá em cima, não adiantará tentar mudar embaixo.

Portanto, para que eu possa seguir falando sobre as falhas das instituições psiquiátricas SEM CENSURA eu me vi obrigado a me afastar de TODAS as instituições psiquiátricas.

Ora, eu participo de discussões sobre instituições psiquiátricas. Não poderia deixar de denunciar as irregularidades da instituição em que atuo para proteger quem trabalha nela. Seria ANTI-ÉTICO de minha parte.

Escrevi várias vezes sobre falhas recorrentes do sistema psiquiátrico: pessoas são amarradas nos hospitais psiquiátricos como se fossem animais raivosos. Os pacientes mal têm direito de falar sobre os problemas que os levaram ao surto.

Eu estou determinado a mudar essa situação. Sozinho. Pode dizer que é loucura. Pode dizer que estou doente. Não me incomoda. Eu fui rotulado como doente mental perigoso por doutores, por que ia me incomodar em ser chamado de doente mental por pessoas comuns?

Isso é apenas mais uma motivação para que eu possa MOSTRAR que não sou perigoso e que sou um ser humano que merece oportunidades, sem discriminação, como manda a Lei. como já disse, HOSPÍCIOS É QUE SÃO UM PERIGO PARA A SOCIEDADE.
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12.11.12

O destino de quem sai de um hospital psiquiátrico / hospício / manicômio

Ao sair de internação num hospital psiquiátrico pela primeira vez eu me deparei com o péssimo acompanhamento, de 3 em 3 meses. Por isso eu fiz de tudo para ser internado de novo.

(Não tive nenhum "ciclo" de doença como disseram, eu fiz o que devia ser feito. Faria de novo. Ademais não dá para ficar sem ser internado com um acompanhamento tão ruim. Esse papo de "ciclo de transtorno" não tem o menor sentido.)

Porém ao sair da segunda internação, eu fui obrigado a constatar que eu estava TOTALMENTE FERRADO. Não era mais aceito normalmente onde eu trabalhava, era visto com desconfiança, eu era considerado um perigo para a sociedade.

O impressionante é que os horrores do hospício são tão grandes que os profissionais de saúde mental deveriam de se envergonhar de tratar seus pacientes como animais raivosos.

Enfim, me vi com o maldito rótulo de doente mental que os profissionais de saúde mental criaram para seus pacientes. Aí vi que eu tinha poucas opções para meu futuro, pois sabia que não seria fácil ser um cidadão novamente, eu estava com o nome sujo.

Ao sair dos portões do maldito Sanatório Rio de Janeiro, eu via minhas opções de vida:
Naturalmente não seria possível me empregar nos tipos de trabalhos que me contentavam, ou seja, trabalhos simples, de ajudante, etc. Infelizmente eu tive que pensar no que vários pacientes que estavam internados comigo pensaram: eles pensavam em partir para o crime, pois sabiam que sua cidadania estava destruída. Como iam conseguir emprego?

Vários anos depois de ter saído da segunda internação eu nem pensava em compartilhar esses nossos tristes planos, pois achava bem vergonhoso. Hoje compartilho pois sei que mais vergonhoso é jogar pessoas em manicômios e destruir sua cidadania.

Alguns companheiros de internação, de fato, partiram para o crime, por não ver outra saída. Um deles foi preso e jogado num lugar pior do que o hospício comum: foi jogado no manicômio judiciário.

Porém havia outras duas opções: me conformar e passar o resto da vida fingindo que estou me tratando com um sistema que NÃO FUNCIONA, como muitos fazem. Ou me restava a última opção: uma opção mais difícil que ser jogado no criminoso manicômio judiciário e mais difícil que me conformar.

Esta última opção é a que eu escolhi: explicar para os profissionais de saúde mental que eles estão equivocados e que seus métodos de tratamento NÃO FUNCIONAM. Mas para fazer isso eu teria que ir com muita calma, pois os profissionais de saúde mental pareciam estar sinceramente convencidos que seus métodos funcionavam.

Por isso eu passei cerca de dez anos falando com profissionais de saúde mental, participando de congressos e conferências, conversando com lideranças, escrevendo SITES e BLOGS, etc.

Infelizmente, em vez de haver melhoras, houve PIORAS. Diminuiu-se o número de médicos nos serviços de saúde mental, a qualificação piorou, etc.

E mais de 10 anos depois eu fui internado no melhor hospital psiquiátrico público do Rio de Janeiro, o Instituto Philippe Pinel, e pude ver que os mesmos barbarismos que eram feitos antes continuavam sendo feitos. Nada havia mudado.

Pelo que eu vi, eu terei que, pessoalmente, REESCREVER as formas de tratamento psiquiátrico, reinventar com detalhes, para que fique BEM CLARO que os métodos psiquiátricos, NÃO FUNCIONAM e que esse sistema de tratamento mental precisa ser colocado na gaveta PARA SEMPRE. E isso vai dar mais trabalho ainda! Meu Deus!
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30.3.12

Paciente psiquiátrico só tem razão quando elogia hospício

Esta publicação é uma resposta a uma pergunta que muitos fazem:
"Por que o amarraram e o trataram como você descreve, se você aparenta poder raciocinar, e conversar?"

Pelas claras descrições dos terrores dos hospícios que eu faço, LÓGICO que o pessoal dos hospitais psiquiátricos poderia conversar comigo em vez de me amarrar.

Eis a resposta abaixo:


Os terrores do hospício público, o hospício que é pago e mantido pelo governo.

Respondendo a sua pergunta: eu estava realmente doente mentalmente quando fui internado pela primeira vez. E estava MUITO MAL. Porém depois de uma primeira internação a pessoa fica MARCADA, aí eles internam por qualquer coisa.

Na verdade doença mental não é privilégio de poucos E PRATICAMENTE TODO MUNDO precisa de um cuidado mental.

Porém os próprios psiquiatras e psicólogos transformaram os hospitais psiquiátricos em asilos de pessoas sem razão, tolos e loucos.

Ou seja, ninguém quer se tratar, ninguém quer frequentar hospitais psiquiátricos, Centros de Atenção Psicossocial(CAPS), etc. pois os psiquiatras e psicólogos deixaram a impressão que quem frequenta esses lugares como pacientes nunca tem razão, é bobo, louco e tolo.

Ninguém quer ser considerado louco e sem razão!

É melhor sofrer com uma doença, uma agonia, uma depressão... do que perder toda razão!

Algumas pessoas só procuram os hospícios voluntariamente quando o sofrimento já está muito grande!

Um exemplo dramático: eu falei de meus sintomas para um psiquiatra. Um familiar disse o contrário e desmentiu tudo que eu disse. Logicamente o psiquiatra levou em consideração o que o familiar falou e o que eu disse sequer foi anotado.

Na verdade, eu sempre me tratei sozinho, me exercitando, comendo direito e ajudando outros pacientes. Esses hospícios NUNCA me trataram, não senhor.

Em 10 anos de hospício eu raramente vi um psiquiatra ou psicólogo realmente prestar atenção no que eu falava. Eu raramente vi um psiquiatra ou psicólogo ANOTAR o que eu falava.

Bem pior do que acontece no filme do Patch Adams, com o Robin Williams.

Os pacientes que frequentam esses hospícios e seguem esses tratamentos arcaicos sem protestar o fazem por culpa, por se considerarem um peso para a sociedade. Ou por terem arrumado um emprego dentro do hospício, pois encontram grandes dificuldades para conseguir trabalho lá fora, por causa do estigma que os próprios psiquiatras e psicólogos criaram.

Não pense que é bacana trabalhar num hospício como paciente. Pois como empregado não se pode mais reclamar das coisas erradas que vê e tem que fazer VISTA GROSSA para todo tipo de corrupção e coisa errada.

E mais: se o paciente que trabalha no hospício não elogiar o hospício corre o risco de ser demitido, ou melhor, dispensado, "por não estar bem".

Paciente psiquiátrico só está bem quando elogia hospício.

Paciente psiquiátrico só tem razão quando elogia hospício.

E a corrupção que rola em hospícios públicos é pior do que a que se encontra em outros lugares...

Obrigado pela atenção.

8.11.11

Heis o inferno: Doença mental

Poucos anos depois de meu tio morrer no hospício, eu passei diante de um desses manicômios. Pessoas gritando, gemidos desesperados. Assustado, pensei, "Heis o inferno. Que sofrimento pode ser comparado ao sofrimento dessas pessoas?"

Realmente NADA poderia ser comparado ao sofrimento de uma doença mental. Apesar de haver gente que ache que dor de dente dói mais. Apesar de haver gente que ache que CHOQUE ELÉTRICO dói mais. Apesar de haver gente que ache que colocar um "piercing" dói mais.

A própria pessoa que sofre dessa doença não tem noção da gravidade da coisa.

Era evidente que tais gemidos não podiam ser apenas "sofrimento psíquico."

Coisas sinistras aconteciam naquele lugar, estava óbvio. E eu daria qualquer coisa para entrar naquele inferno e descobrir EXATAMENTE o que matou meu tio.

18.8.11

Manicômios, hospícios, hospitais psiquiátricos e o terror

Aquela mãe repetia “Meu paciente morreu, mas não tenho nenhum remorso. Sei que fiz tudo que poderia fazer.”

Eu me compadecia por ela, pois sabia que, no fundo, o remorso a consumia. Me compadecia, pois sabia que ela era uma boa familiar. Tanto que somente um bom familiar sentiria remorso, e continuaria lutando para que outros não tenham o destino de seu familiar, como essa mãe fazia.

E lamentava que, aquele rapaz que morrera, paciente psiquiátrico, tinha perdido a mãe antes de morrer. É que a mãe já não o via como filho, e sim como paciente. Ela só o chamava de paciente, e raramente de filho.

Aquela mãe tinha se tornado enfermeira do filho, psiquiatra, psicóloga, ou coisa assim. Não era mais mãe. E ele não era mais filho dela. Era paciente. Não era mais família. Aquele rapaz continuava internado mesmo quando voltava para casa da internação.

Esse é o HOSPÍCIO EXTERNO. O hospício fora da internação.

Agora eu vou contar minha experiência não do ponto de vista de um paciente psiquiátrico ou ex-paciente psiquiátrico. Mas sim do ponto de vista de familiar. Pois como já disse tenho familiares que morreram em instituições psiquiátricas.

Daí que de meu ponto de vista de familiar é claro que eu NUNCA poderia ter sofrido como meus familiares que morreram sofreram. E realmente seria hipocrisia dizer que sofri tanto assim como familiar. Como sei que ninguém da família sofreu como esses falecidos pacientes psiquiátricos da família.

O meu tio que morreu mais recentemente tinha crises constantes e por isso foi abandonado pela família, sendo largado nos hospícios da vida. Ele dava muito trabalho, pois tinha crises constantes.

Com a chegada das leis da Reforma Psiquiátrica, por volta de 2001, ele passou a morar numa residência terapêutica. Mas pelo que me disseram ele era acompanhado praticamente noite e dia por enfermeiros nessa residência terapêutica.

Enfim, essa não é a vida que eu ia querer para mim, e provavelmente você também não ia querer para você. Ele não tinha mais o afeto dos familiares, e praticamente foi condenado a um HOSPÍCIO EXTERNO, pois era monitorado por profissionais de saúde mental dia e noite.

E ele deve ter morrido com sentimentos de culpa. Deve ter pensado “poxa, eu fui um peso para minha família. Não valho nada.” Realmente esse é um dos piores destinos que alguém pode ter.

Quanto ao outro tio, o destino foi mais negro. Ele morreu no hospício. No início da década de 90. Quando estava bem longe de haver a Reforma Psiquiátrica, que fiscaliza UM POUCO os hospícios.

Ele era tranquilo. Estava domado. Se comportava bem. E quando começava a reclamar era internado rapidinho. Por isso suas internações eram constantes. Vivia mais no hospício que em casa.

Naturalmente quando ele morreu no hospício eu logo vi que era óbvio que aquilo não era morte natural. Não era tão ingênuo, apesar de jovem. Pensei que a família ia começar um protesto sério contra isso, mas quebrei a cara.

O que eu, um jovem que era tão pouco respeitado, poderia fazer contra isso? Decidi deixar para tomar providências anos depois.

Claro que na época eu suspeitava que aquela morte não tinha sido uma “complicação” natural. Na época eu ainda não tinha sido internado no hospício. Hoje eu tenho certeza que meu tio merecia um pouco mais de atenção na questão de sua morte.

Ele não morreu num SPA. Morreu num hospício. Talvez eu deva descrever como as pessoas que morrem no hospício são tratadas, a partir de minha experiência de internação.

Na hora do café da manhã, no sanatório, eu me espantei com uma cena de filme de terror. Enfermeiros, ou auxiliares de enfermagem levavam uma figura enfaixada. A figura parecia uma múmia.

Ao levar a figura os enfermeiros, volta e meia, batiam com a cabeça da figura no corrimão, por acidente. Riam, faziam piadas.

Eu já acreditava que aquilo era uma brincadeira de mau-gosto. Como poderia ser real? Mas para meu total terror, eu vim a saber depois que aquela múmia era um paciente psiquiátrico que tinha morrido. Tropeçou no banho!!! Se você visse a estrutura dessa figura você ia duvidar desse tropeção fatal, obviamente.

Claro que ficava cada vez mais claro para mim que lá dentro minha vida não valia nada. Uma pessoa morreu num hospício, dito hospital psiquiátrico, e nem uma perícia decente houve.

O corpo não deveria ser removido só pela polícia? O local da morte não deveria ser interditado? Não deveria haver uma investigação quanto a causa da morte? A polícia não deveria ir ao local? Nada disso aconteceu.

Ou será que alguém acha que paciente psiquiátrico não merece esses procedimentos que as pessoas “normais” têm?

Esse texto é parte de um documento escrito pelo autor sobre a INSTITUCIONALIZAÇÃO e pode ser lido na íntegra no blog http://paciente-psiquiatrico.blogspot.com/. Obrigado pelos comentários de todos. Esta publicação foi primeiro publicada em 07 de Janeiro de 2010 e foi editada em 18 de agosto de 2011.

7.9.10

O Instituto Philippe Pinel foi o Paraíso...

Eu estava com sede, sem forças, nas ruas da Zona Sul do Rio de Janeiro. Me arrastava. Estava desidratado. Bebia das valas, das sarjetas. E às vezes, por acaso, achava algumas garrafas de cerveja pela metade e bebia confiante que mataria minha sede.

Mas no meu desespero eu não percebia que aquela cerveja só servia para me desidratar mais ainda.

Quando consegui ser admitido no Pinel em vez de ser levado ao soro por estar desidratado, fui levado a um quarto escuro com grades, onde fui trancado.

Mas logo fui solto. Minha família esteve presente o tempo todo. Por isso que o Pinel foi um paraíso.

Sem ironia.

E meus colegas pacientes psiquiátricos perguntavam para que servia aquelas drogas que só os deixavam sonolentos.

9.2.10

Médico indiciado pela morte de Michael Jackson por overdose medicamentosa

LOS ANGELES (Reuters) - Promotores de Los Angeles formalizaram na segunda-feira o processo judicial por homicídio culposo contra o médico que atendia Michael Jackson na época da sua morte, em 25 de junho.

O cardiologista Conrad Murray há meses era investigado por ter supostamente administrado uma sobredose dos medicamentos propofol, lorazepam e outros analgésicos, sedativos e um estimulante ao cantor de "Thriller".


Notícia extraída do Yahoo! Notícias.

Para quem não sabe LORAZEPAM é um psicotrópico poderoso conhecido pelo nome de LORAX aqui no Brasil.

Enfim, esse médico está respondendo na Justiça por levar o Michael Jackson a morte através de psicotrópicos e outros fármacos.

Mas não vão responsabilizar os fabricantes dos fármacos?

Seria bom para a sociedade que os psiquiatras que levaram tantos pacientes psiquiátricos a morte com super-doses de medicamentos psiquiátricos fossem indiciados e respondessem na Justiça também.

Pois se alguém que atropela e mata SEM INTENÇÃO tem que responder na Justiça por que os psiquiatras nunca respondem pelas mortes que as prescrições exageradas de psicotrópicos causam?

Acha que seria apenas justo.

Infelizmente eu conheço VÁRIOS psiquiatras que levaram pacientes psiquiátricos e ex-pacientes psiquiátricos amigos meus a morte por passar psicotrópicos demais.

(Nota: obviamente nem todos os psiquiatras cometem essas falhas.)

Mas infelizmente eu sei que esses psiquiatras provavelmente nunca responderão por essas negligências médicas.

A minha luta é para evitar que as mortes por esses psicotrópicos continuem, e isto eu VOU CONSEGUIR. Mas não é minha prioridade levar esses psiquiatras infelizes a Justiça.

Muitos desses psiquiatras que levaram seus pacientes psiquiátricos a morte eram até boas pessoas. Uns até faziam uns trabalhos legais. Mas eram PÉSSIMOS administrando medicamentos psiquiátricos. Erraram de profissão.

Eu não sou a favor de prisões QUE ISOLEM. Sou a favor da liberdade.

Repito, apenas acho que esses psiquiatras que eu conheci, MUITOS QUE ATÉ FIZERAM COISAS LEGAIS, deveriam responder por seus crimes como qualquer outro criminoso.

Eu até gosto de muitos deles. Apenas acho que eles deveriam responder por seus crimes, sejam eles dolosos ou culposos.

Onde há isolamento não há lei, não há regras...


Como eu sou defensor da liberdade, você já devia saber que eu sou contra qualquer tipo de prisão QUE ISOLE. Ou seja, sou contra pessoas ficarem limitadas a quatro paredes ou a muros, impossibilitadas de ver o mundo que Deus (A Natureza) fez para todos.

Sou contra a pena de morte. A nenhum criminoso deve ser negada uma segunda chance.

Mas que haja pena de morte para QUALQUER criminoso que causou morte e REINCIDIU depois de pagar pelo crime.

Ou seja, TOLERÂNCIA ZERO para quem volta a causar morte depois de ter pagado na Justiça por tal crime.

E quando alguém fica isolado A FORÇA geralmente a vida dessa pessoa fica nas mãos de seus carcereiros. Ou seja, quem está tomando conta da pessoa que foi presa ou internada pode fazer o que quiser com a pessoa, pois quem está de fora não está vendo. Seus carcereiros decidem a forma da pessoa viver, e até decide se a pessoa vive ou não.

Sou contra asilos enfim. O único asilo que deveria existir deveria ser o asilo VOLUNTÁRIO. Sou contra qualquer forma de asilo forçado.

Acho que quem cometeu crimes deveria ser submetido a trabalhos FORÇADOS para pagar pelo prejuízo que causou a outras vidas. Não seria uma punição. Seria um PAGAMENTO. Quer dizer, o criminoso PAGARIA por seus crimes com trabalho. Quem deve não deve ser punido. Quem deve tem que PAGAR. Isso é justiça, em vez de vingança.

Quem roubou ou traficou, por exemplo, seria obrigado a se qualificar profissionalmente a custas do poder público. (E, claro, seria forçado a trabalhar.)

Claro que esses criminosos seriam monitorados noite e dia e SE tentassem fugir ou sair da linha seriam EXECUTADOS imediatamente, sem qualquer hesitação.

Naturalmente eles teriam advogados para defender seus direitos e causas e NÃO TERIAM MOTIVOS para qualquer rebelião.

Não teriam motivos, pois poderiam ir a qualquer lugar, apesar de estar VIGIADOS constantemente.

Mesmo àqueles criminosos que matam sem motivos, ou seja matam por prazer, como os CHAMADOS de psicopatas teriam a chance de se recuperar. Com o devido monitoramento, é claro, sob vigia constante, mas NADA DE ISOLAMENTO.

Eles iriam fazer trabalhos forçados E CURSOS de qualificação. Pois vale a pena investir na possibilidade dos "IRRECUPERÁVEIS" se recuperarem.

Quanto aqueles que matam por negligência, como médicos, por exemplo, eles seriam monitorados como qualquer outro criminoso e teriam que PAGAR como qualquer outro criminoso.

Por exemplo, se um paciente psiquiátrico morresse por causa de psicotrópicos mal-administrados o psiquiatra iria ser obrigado a fazer novamente o curso de medicina e seria forçado a fazer outros cursos. Afinal, não sabemos se seria prudente que ele voltasse a ser psiquiatra. Isso teria que ser JULGADO.

E se esse psiquiatra tentasse fugir ou sair da linha ele seria EXECUTADO como qualquer outro. Afinal, a justiça é igual para todos.

Acha que eu sou extremista?

Não, não sou. A pessoa que cometeu crimes seria forçada a fazer esses cursos e essas coisas por estar PAGANDO.

E SE REABILITANDO também.

Agora MALDADE mesmo é forçar alguém a tomar psicotrópicos, por exemplo. Pois nesse caso os pacientes psiquiátricos e ex-pacientes psiquiátricos não cometeram crimes.

E se cometeram crimes que PAGUEM por seus crimes como qualquer outra pessoa, e não com drogas (psicotrópicos).

"Podemos levar um cavalo até a água, poder até força-lo a beber, mas não podemos dar-lhe sede."

(Provérbio da filosofia do Kung Fu que quer dizer que O ABUSO DE PODER, como forçar alguém a tomar água ou a tomar um psicotrópico, não pode criar a real necessidade que alguém poderia ter de tomar água ou de tomar psicotrópico.)

NOTA: Continuo defendendo o uso de psicotrópicos em casos de EMERGÊNCIA. Ou seja, para parar um surto, para fazer alguém dormir quando todos outros recursos acabaram, etc.

5.3.09

COMO É UMA INTERNAÇÃO À FORÇA

Como muitos de nós, do movimento dos ex-pacientes, ou dos "sobreviventes psiquiátricos", uma vez fui preso ou "internado" e forçado a tomar um medicamento psiquiátrico - Thorazine. Eu estava psicologicamente inteiramente normal na época, apesar de estar muito infeliz com a perda da relação com a mulher que eu amava e estar fazendo prova na faculdade, o que levou os meus pais a decidirem a me forçar a fazer o que eles achavam erradamente que seria uma "terapia": Como eu me recusei a procurar "terapia" voluntariamente, a sua única forma de me forçar a "terapia" foi me internar em um "hospital" contra a minha vontade.

No dia em que eu fui preso (ou "internado"), depois do pessoal do hospital chegar e me fazer perguntas para a sua papelada, eu estava autorizado a andar um pouco na corredores e salas do local onde eu tinha sido preso, explorando o meu novo ambiente. Mas sem razão aparente, depois de algum tempo uma enfermeira aproximou-me com uma agulha hipodérmica na mão e me disse que ela tinha uma injeção que o meu médico tinha receitado para mim. "Eu nem falei com nenhum médico" Eu disse a ela.

Ela parecia perceber que eu estava correto, e ela parecia um pouco sem graça quando eu perguntei o nome do médico que tinha supostamente ordenado a injeção: Ela não tinha idéia de quem ele era. Mas nada disso importava para o pessoal do hospital. Ela foi embora, mas voltou um pouco mais tarde com um enfermeiro grandão, que logo se juntou a outro enfermeiro, para me forçar a tomar a injeção. Eles também não deram atenção quando eu lhes disse que eu ainda não tinha tido uma audiência ou julgamento para determinar se a minha internação era justa ou não, que eu estava internado apenas por uma causa presumida, e que era errado eles me forçarem a tomar um medicamento antes de eu ter uma chance de ir a tribunal para apresentar meus argumentos contra internação ou "tratamento" contra a minha vontade.

Devido à leis sobre "internação" involuntária em cada Estado, e leis sobre "compromisso ambulatorial" em 40 ou mais Estados dos E.U.A. que existem com a finalidade de forçar as pessoas a tomar psicofármacos ou enfrentar repetidas prisões psiquiátricas em "hospitais", aqueles de nós que por causa da nossa experiência do passado temem administração forçada destas drogas perigosas necessitamos de conselhos sobre como nos proteger disso. Tudo que os drs. Breggin & Cohen (autores do livro Sua Droga Pode Ser Seu Problema, que fala dos perigos da psiquiatria) tem a dizer sobre este tema é: "Não deixe que ninguém te pressione a começar a tomar ou continuar a tomar psicofármacos. Enquanto um adulto competente, você tem o direito legal e ético de tomar suas próprias decisões sobre tomar psicofármacos. ... Suas decisões sobre tomar ou rejeitar drogas devem ser feitas sem pressão coerciva dos médicos "(p. 29). Embora eu concorde com esta afirmação, é óbvio que muitos legisladores estaduais, juízes, psiquiatras, e o pessoal dos hospitais psiquiátricos não concordam.

O que nós vítimas da psiquiatria precisamos é de uma estratégia para evitar administração forçada de drogas psiquiátricas. Drs. Breggin & Cohen não oferecem uma neste livro.
Pode não haver uma maneira confiável para se proteger de administração forçada de drogas psiquiátricas, mas aqui estão duas ideias: Uma é contratar um advogado para escrever uma "Declaração Quanto Tratamento de Saúde Mental", no qual você diz que você não deseja receber psicofármacos (ou sujeição física ou terapia de choque) se você for declarado incompetente ou com doença mental, com uma certificação emitida por um psiquiatra que o acompanhe afirmando que estava mentalmente competente no momento em que você fez a declaração. Isto irá minar o argumento de que você concordaria com o "tratamento" se o seu pensamento não estivesse perturbado pela doença mental.

Outra estratégia é manter um relacionamento com um psiquiatra que se opõe a "tratamentos" coercivos que irá testemunhar para você, se você se tornar uma vítima da opressão psiquiátrica tais como "internação" à força ou ataques da psiquiatria, tais como administração forçada de drogas psiquiátricas. Um advogado aconselhou-me recentemente que provavelmente deve ser um psiquiatra, não um psicólogo. Talvez nos estados onde psicólogos estão autorizados a internar as pessoas contra a sua vontade, o depoimento de um psicólogo fosse adequado.

Em um mundo racional onde os direitos humanos fossem respeitados, administração forçada de drogas psiquiátricas não ia acontecer. Em um mundo racional onde os direitos humanos fossem respeitados, hoje, nenhum dos psicofármacos seria utilizado por nenhuma pessoa, voluntária ou involuntariamente. Talvez livros Como Sua Droga Pode Ser o seu Problema ajudem alguns de nós a começar a pensar racionalmente sobre psicofármacos.

O texto acima foi retirado da página do ativista da antipsiquiatria dos Estados Unidos, Douglas A. Smith. Para ler mais sobre o texto em inglês vá para a página BOOK REVIEW: BREGGIN & COHEN,YOUR DRUG MAY BE YOUR PROBLEM. Ou leia o texto completo no blog THE PSYCHIATRIC PATIENT OF THE AMERICAS - PACIENTE PSIQUIÁTRICO.

Eu gostaria de admitir que eu lamento as críticas que fiz a minha psiquiatra atual. Pois sei que a profissão de psiquiatra é realmente difícil, devido a falta de base científica. Tanto lamento, pois talvez ela tenha lido minhas críticas e deve ter ficado triste. Mas ela não tem culpa. Com a falta de recursos que há na psiquiatria hoje eu devo esperar tudo, sem culpar os psiquiatras. Você pode ler informações técnicas sobre a falta de base científica da psiquiatria no blog THE PSYCHIATRIC PATIENT OF THE AMERICAS - PACIENTE PSIQUIÁTRICO, onde você vai encontrar traduzido o texto de dois médicos que falam sobre a psiquiatria e sobre os danos causados por psicofármacos.