Isso aconteceu por volta do ano 2008. Havia uma agitação na entrada do CAPS de Irajá. Um policial havia sido enviado ao CAPS para proteger o paciente do mau trato evidente. A família tinha buscado atendimento no CAPS de Irajá. Os profissionais do CAPS se recusaram a atender e disseram para que fossem ao CAPS de Guadalupe. No CAPS de Guadalupe disseram para que buscassem atendimento no CAPS de Irajá. Voltando ao CAPS de Irajá, os profissionais do CAPS recusaram atendimento de novo, dizendo que não havia vaga. Revoltada, a família fez uma denúncia na delegacia mais próxima.
Ao ver a cena, era difícil para mim saber quem era o familiar e quem era o paciente em questão. Havia uma mulher e um homem bem mais velho. A mulher era muito bonita, porém estava revoltadíssima. Já o homem parecia mais calmo. A mulher estava tão revoltada que cheguei a pensar que ela que fosse a paciente. Mas o paciente era o homem. E me surpreendeu muito saber que a mulher era esposa dele! Com a presença da polícia o homem foi finalmente atendido.
A presença da família é imprescindível para denunciar maus tratos e mau atendimento na psiquiatria pública. Se esse paciente fosse fazer a denúncia sozinho, sequer o levariam a sério. Quando eu fui internado em 2001 no Sanatório Rio de Janeiro, a violência do pessoal da enfermagem era muito grande. Eles me amarravam com tanta violência que chegou a machucar meus pulsos. Por isso decidi mostrar as feridas para um familiar, para que houvesse uma denúncia e dessa forma parassem de maltratar os pacientes naquele manicômio. Porém o familiar não me levou a sério e apenas disse "É para seu bem".
Claro que ser covardemente torturado não faz bem a ninguém. O problema é que esse familiar era um irmão, e é um muito comum haver falta de amor entre irmãos, pois irmãos a gente não escolhe. A vantagem de meu companheiro paciente psiquiátrico é que a família que ele tinha era a esposa. Entre cônjuges, há mais possibilidades de amor e afeto verdadeiro, pois cônjuges a gente pode escolher.
De qualquer forma, é dever de todos os cidadãos denunciar abusos e maus tratos contra pacientes psiquiátricos. Quando um cidadão vê um mau trato e não denuncia ele é conivente. Mas quando uma pessoa da família vê um mau trato e não denuncia essa pessoa da família se torna CÚMPLICE e pode ser considerado co-autor do mau trato.
Continuarei depois com esse tema.
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Crônicas e textos sobre saúde mental. Por melhores formas de tratamento do sofrimento psíquico. Pelo fim das internações psiquiátricas involuntárias. Por exames laboratoriais antes da prescrição de psicotrópicos. Pela promoção de tratamentos alternativos. Pelo cumprimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Pelo fim dos abusos sexuais e exploração infantil.
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