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21.11.13

QUIZ DA DEPRESSÃO (de Mike Freeman)

Este é um texto traduzido de um site que já não existe mais. Eu publiquei a tradução originalmente no dia 22 de dezembro de 2008, em outro blog.

Mike freeman é um pesquisador que diz que descobriu a cura para depressão, e a vende no site CURE DEPRESSION NOW, na Internet. Veja o interessante Quiz que ele fez.

Todas as questões abaixo devem ser respondidas "Verdadeiro" ou "Falso" (V ou F)


  1. Depressão pode causar dano cerebral, se persistir por muito tempo.
  2. Depressão Crônica quer dizer que não se pode suportar depressão.
  3. Anti-depressivos são a única opção de tratamento disponível para depressão.
  4. Você tem que tomar anti-depressivos para sempre, uma vez que você começa a tomá-los.
  5. Ter cachorro ou gato (ou qualquer animal de estimação) pode ajudar algumas pessoas a lidar com a depressão.
  6. Depressão só afeta você.
  7. Você pode pegar (sic) depressão de seus pais (é genético / hereditário)
  8. Depressão tem cura, então não há motivo para sofrer com isso.
  9. Não há nenhuma causa para depressão. Acontece por acaso.

Respostas abaixo:


  1. V - Sim, é verdade.
  2. F - Quer dizer "depressão que não acaba" ou um caso de depressão fora de controle.
  3. F - De forma alguma! Há várias opções de tratamento disponíveis - e quase todas elas melhores que os anti-depressivos!
  4. F - Novamente, de forma alguma! Você pode falar com seu médico sobre tratamentos alternativos, que permitiriam que você suspendesse o uso dos anti-depressivos (com recomendação médica).
  5. V - Se chama 'Pet Therapy", e pode beneficiar algumas pessoas (mas não todas).
  6. F - A depressão não afeta só você, mas afeta também sua família, e todos que você conhece!
  7. V - Pode ser, mas não sempre. Você pode também "aprender" depressão de amigos, familiares, e claro, dos pais. De qualquer forma, você pode ser adotado, e ainda assim aprender depressão de sua família adotiva! O cérebro é maravilhosamente complexo, não é?
  8. V -
  9. F -


Determine sua pontuação final e veja o resultado:


10= Sabe tudo sobre depressão. Você já é um doutor!


9= Você é obviamente inteligente, mas talvez tenha sido mal informado sobre algumas coisas.


8= Hora de refrescar seus conhecimentos - os tempos mudam, assim como a informação que importa para você.


7= Nada mal, mas também não está bom. Hora de começar a ler mais sobre o assunto, e talvez, fazer mais perguntas.


6= Parece que você anda ouvindo conselhos psicológicos de rádio FM. Hora de reaprender o que você "acha" que sabe e se atualizar mais.


5 ou menos=> Não sabe nada de depressão! Você precisa começar a aprender sobre como a depressão realmente acontece, em vez das bobagens popularizadas pela mídia!

3.9.13

Como e por que parar de tomar psicofármacos

Que fique claro que esse texto tem função informativa e que parar de tomar medicamento é coisa séria. É uma decisão que deve ser tomada com cuidado. E como diz o Dr. Breggin, é melhor buscar o apoio de um profissional de saúde para tomar tal decisão.

Avaliação do Livro:

Sua droga pode ser o seu problema:
Como e Por que parar de tomar psicofármacos



Escrito pelo psiquiatra Peter R. Breggin, M.D., junto com David Cohen, Ph.D.
Perseus Books - Reading, Massachusetts - 1999


comentado por Douglas A. Smith

Se você precisar de aconselhamento específico sobre como parar de tomar um ou mais psicofármacos, este é o livro para ler. Neste sentido, este livro preenche uma lacuna deixada em outros livros do Dr. Peter Breggin Li, incluindo Psicofármacos: Riscos para o cérebro (1983), Psiquiatria Tóxica (1991), e Respondendo ao Prozac (Talking Back to Prozac) (1998). Neste livro os Doutores Breggin & Cohen também deixam claro que acham que o conceito de "doença mental" é errado. Por exemplo, eles repetidamente colocam o termo doença mental entre aspas zombeteiras. Afirmam claramente que, no seu parecer, você está melhor sem drogas psiquiátricas, qualquer que seja o seu "problema psiquiátrico": depressão, transtorno afetivo bipolar, ansiedade, ataques, "esquizofrenia" ou psicose, ou qualquer outra coisa.
Neste livro os Doutores Breggin & Cohen reveem os motivos pelos quais você não deve tomar nenhum tipo de droga psiquiátrica:

"Nenhuma droga psiquiátrica jamais foi adaptada a nenhum conhecido transtorno bioquímico... Nenhum desequilíbrio bioquímico jamais fora documentado com certeza, em associação com qualquer diagnóstico psiquiátrico. A caçada por estes equivocados desequilíbrios bioquímicos continua; mas a sua existência é pura especulação, inspirada por aqueles que defendem drogas"(p. 35).

"Embora muitas vezes os defensores da medicação mostrem aparente confiança sobre como psicofármacos podem corrigir desequilíbrios bioquímicos no cérebro, eles estão apenas apoiados em pura especulação. Há pouca evidência para a existência de tais desequilíbrios e nenhuma maneira de demonstrar como a droga iria afetar-lhes se eles existissem "(p. 34).

"Muitas vezes, dizem aos pacientes, "Isso é biológico e genético." Não se preocupe, pois não há nenhuma prova substancial de que qualquer diagnóstico psiquiátrico tenha uma base física "(p. 93).

"Justamente porque há tão pouco suporte científico para o uso de psicofármacos, mistificação e slogans são muitas vezes comunicados aos médicos através das publicidades das drogas e, em seguida, aos pacientes pelos médicos" (p. 112-123).

"Na verdade, devemos suspeitar, pois qualquer droga psicoativa - qualquer substância que afeta função mental - tende a produzir mudanças irreversíveis em algumas pessoas, se não na maioria das pessoas. Que esperança podemos ter de que banhar o cérebro com drogas psiquiátricas irá realmente melhorar a função deste misterioso órgão? Quase nenhuma. ... Na verdade a maior parte do que sabemos sobre os vários neurotransmissores tem sido recolhido através de estudos sobre como os psicofármacos perturbam ou estragam seu funcionamento "(p. 9 -).

"Defensores dos psicofármacos muitas vezes alegam que os medicamentos melhoram a aprendizagem e aptidão e ajudam a obter melhor benefícios da psicoterapia, mas o contrário é verdadeiro. Não existem medicamentos que melhoram a função mental, a auto-compreensão, ou relações humanas. Qualquer fármaco que afeta os processos mentais faz isso os prejudicando "(p. 97-98).

"Apesar de um enorme sucesso da campanha promocional das empresas farmacêuticas e da psiquiatria biológica, a eficácia da maioria ou de todos os psicofármacos continua a ser difícil de demonstrar. As drogas são, frequentemente, não mais eficaz do que pilúlas de açúcar ou placebos - e até mesmo para realizar estes limitados resultados positivos, os ensaios clínicos e os dados que eles geram normalmente tem de ser estatisticamente manipulados "(p. 37).

"Mas psiquiatria não é ciência? Será que a fé na psiquiatria não é baseada em fatos? Em pesquisa? Como é possível não "confiar nas pesquisas"? A triste verdade é que, no campo da psiquiatria, é impossível confiar nas pesquisas. " Quase todas as pesquisas neste campo são pagas por empresas farmacêuticas e conduzidas por pessoas que "entregam", o melhor resultado possível para as empresas. ... Infelizmente, até pessoas bem informadas muitas vezes botam fé na psiquiatria e nas pesquisas psiquiátricas. É o mesmo que botar fé em uma empresa farmacêutica "(p. 189-190).

"... sofrimento emocional não pode ser amenizado sem prejudicar outras funções, como a concentração, atenção, sensibilidade e auto-consciência" (p. 36).

"Todos os medicamentos psiquiátricos podem causar problemas durante a retirada" (p. 16).

E quanto mais você tomar uma droga psiquiátrica, mais difícil será a sua retirada.
"... muitos efeitos adversos são difíceis de distinguir dos problemas emocionais" (p. 24).

"Contrariamente às alegações, neurolépticos não têm efeitos específicos sobre idéias irracionais (delírios) ou percepções (alucinações). Como todos os outros medicamentos psiquiátricos, eles têm o mesmo impacto em animais saudáveis, voluntários saudáveis, e os pacientes - a saber, a produção de apatia e indiferença "(p. 77).

Neurolépticos causam danos cerebrais evidenciados por um transtorno de movimento chamado discinesia tardia, mas "Neurolépticos realmente suprimem os sintomas da discinesia tardia, enquanto a doença se desenvolve. ... As taxas de discinesia tardia são extremamente elevadas. Muitos livros estimam uma taxa de 5% - 7% por ano, em adultos jovens sadios [que estão tomando medicamentos neurolépticos]. A taxa é cumulativa de forma que 25% - 35% dos pacientes [tomando neurolépticos] irá desenvolver a doença em 5 anos de tratamento. Entre os idosos [tomando neurolépticos], as taxas de discinesia tardia atingem 20% ou mais por ano. Por uma série de razões, incluindo a ausência de incluir acatisia tardia nas estimativas, as taxas reais são provavelmente muito mais elevadas para todos os doentes "(p. 78).

Os chamados antipsicóticos ou neurolépticos causam uma doença fatal chamada síndrome neuroléptica maligna em até 2,4% de pessoas que os usam. "Usando um termo de baixa taxa de 1 por cento, Maxmen e Ward (1995, p. 33) estimam que 1000 - 4000 mortes ocorrem na América cada ano, como resultado da síndrome neuroléptica maligna. O número real é provavelmente muito maior" (p . 79).

Neurolépticos, também conhecidos como drogas antipsicóticas "sujeitam quase todos os sistemas do corpo ao enfraquecimento. Pesquisas, incluindo um estudo recente, indicam que essas drogas são tóxicas para as células em geral" (p. 81).

Clozaril ... foi proibida em alguns países europeus, uma vez que causou tantas mortes, mas a escalada de poder das empresas farmacêuticas posteriormente levou à sua aprovação pela FDA" nos Estados Unidos (p. 82).

Se você estiver grávida, psicofármacos que você toma vão se inflitrar na corrente sanguínea do seu bebê "e de lá, podem entrar no cérebro do bebê ao nascer. Do mesmo modo, psicofármacos entram no leite da mãe e, portanto, também afetam o cérebro do bebê durante a amamentação" (p. 26).

"... as mulheres que tomam lítio durante a gravidez expõem seus filhos a um aumento da taxa de defeitos cardíacos" (p. 26).

"Alguns médicos tentam tranquilizar gestantes ou mães que estão amamentando quanto a segurança do seu bebê enquanto estão tomando medicamentos psiquiátricos. Mas não há base científica para oferecer essa garantia em relação a qualquer substância que afeta o cérebro" (p. 84).

Este livro é bem documentado e bem escrito, recente (1999), é uma exposição do charlatanismo da saúde mental chamado psiquiatria biológica, particularmente sobre psicofármacos.
Especificamente sobre a forma de parar de tomar psicofármacos, Drs.. Breggin & Cohen dizem que "A regra geral recomendada por alguns profissionais é de ir diminuindo de 10 em 10 por cento - geralmente a cada sete a dez dias" (p. 126).

Isso significa que você pode fazê-lo em dez fases distintas. Eles sugerem que os últimos dez por cento podem ter a necessidade de ser divididos em uma série de pequenos passos e que se você for uma pessoa mais velha que tem "tomado tranqüilizantes diariamente por mais de vinte anos ... um período de dois anos não é incomum" ( p. 137).

Se você está tomando mais de uma droga psiquiátrica cada dia, eles recomendam a abandonar as drogas, uma de cada vez, ou seja, continuando a dose habitual dos outros medicamentos enquanto estiver diminuindo um deles. Como vocês decidem quais droga se deve interromper primeiro? Eles dizem que se "estiver tomando medicamento "A" para neutralizar os efeitos colaterais do medicamento"B"... você provavelmente deve começar a retirar primeiro a droga "B" (p. 136).

Enquanto eles recomendam a retirada dos psicofármacos com a ajuda de um profissional de saúde, eles reconhecem que "a maioria das pessoas que abandonam os psicofármacos fazem isso por conta própria, sem supervisão clínica ativa" (p. 113 - ) .

Fiquei decepcionado por não encontrar nada neste livro sobre um problema que é central para o tema do livro: o ato de drogar a força com medicamentos psiquiátricos as pessoas detidas ou "internadas", bem como a promulgação de leis que tornam obrigatório para os pacientes psiquiátricos de ambulatorio se drogar com psicofármacos, na maioria dos estados dos E.U.A., exemplificada por Kendra's Law em Nova York.

Como muitos de nós, do movimento dos ex-pacientes, ou dos "sobreviventes psiquiátricos", uma vez fui preso ou "internado" e forçado a tomar um medicamento psiquiátrico - Thorazine. Eu estava psicologicamente inteiramente normal na época, apesar de estar muito infeliz com a perda da relação com a mulher que eu amava e estar fazendo prova na faculdade, o que levou os meus pais a decidirem a me forçar a fazer o que eles achavam erradamente que seria uma "terapia": Como eu me recusei a procurar "terapia" voluntariamente, a sua única forma de me forçar a "terapia" foi me internar em um "hospital" contra a minha vontade.

No dia em que eu fui preso (ou "internado"), depois do pessoal do hospital chegar e me fazer perguntas para a sua papelada, eu estava autorizado a andar um pouco na corredores e salas do local onde eu tinha sido preso, explorando o meu novo ambiente . Mas sem razão aparente, depois de algum tempo uma enfermeira se aproximou de mim com uma agulha hipodérmica na mão e me disse que ela tinha uma injeção que o meu médico tinha receitado para mim. "Eu nem falei com nenhum médico" Eu disse a ela. Ela parecia perceber que eu estava correto, e ela parecia um pouco sem graça quando eu perguntei o nome do médico que tinha supostamente ordenado a injeção: Ela não tinha idéia de quem ele era. Mas nada disso importava para o pessoal do hospital. Ela foi embora, mas voltou um pouco mais tarde com um enfermeiro grandão, que logo se juntou a outro enfermeiro, para me forçar a tomar a injeção. Eles também não deram atenção quando eu lhes disse que eu ainda não tinha tido uma audiência ou julgamento para determinar se a minha internação era justa ou não, que eu estava internado apenas por uma causa presumida, e que era errado eles me forçarem a tomar um medicamento antes de eu ter uma chance de ir a tribunal para apresentar meus argumentos contra internação ou "tratamento" contra a minha vontade.

Devido à leis sobre "internação" involuntária em cada Estado, e leis sobre "compromisso ambulatorial" em 40 ou mais Estados dos E.U.A. que existem com a finalidade de forçar as pessoas a tomar psicofármacos ou enfrentar repetidas prisões psiquiátricas em "hospitais", aqueles de nós que por causa da nossa experiência do passado temem administração forçada destas drogas perigosas necessitamos de conselhos sobre como nos proteger disso. Tudo que os drs. Breggin & Cohen tem a dizer sobre este tema é: "Não deixe que ninguém te pressione a começar a tomar ou continuar a tomar psicofármacos. Enquanto um adulto competente, você tem o direito legal e ético de tomar suas próprias decisões sobre tomar psicofármacos. ... Suas decisões sobre tomar ou rejeitar drogas devem ser feitas sem pressão coerciva dos médicos "(p. 29). Embora eu concorde com esta afirmação, é óbvio que muitos legisladores estaduais, juízes, psiquiatras, e o pessoal dos hospitais psiquiátricos não concordam.

O que nós vítimas da psiquiatria precisamos é de uma estratégia para evitar administração forçada de drogas psiquiátricas. Drs. Breggin & Cohen não oferecem uma neste livro.
Pode não haver uma maneira confiável para se proteger de administração forçada de drogas psiquiátricas, mas aqui estão duas ideias: Uma é contratar um advogado para escrever uma "Declaração Quanto Tratamento de Saúde Mental", no qual você diz que você não deseja receber psicofármacos (ou sujeição física ou terapia de choque) se você for declarado incompetente ou com doença mental, com uma certificação emitida por um psiquiatra que o acompanha afirmando que estava mentalmente competente no momento em que você fez a declaração. Isto irá minar o argumento de que você concordaria com o "tratamento" se o seu pensamento não estivesse perturbado pela doença mental. Outra estratégia é manter um relacionamento com um psiquiatra que se opõe a "tratamentos" coercivos que irá testemunhar para você, se você se tornar uma vítima da opressão psiquiátrica tais como "internação" à força ou ataques da psiquiatria, tais como administração forçada de drogas psiquiátricas. Um advogado me aconselhou recentemente que provavelmente deve ser um psiquiatra, não um psicólogo. Talvez nos estados onde psicólogos estão autorizados a internar as pessoas contra a sua vontade, o depoimento de um psicólogo fosse adequado.

Em um mundo racional onde os direitos humanos fossem respeitados, administração forçada de drogas psiquiátricas não ia acontecer. Em um mundo racional onde os direitos humanos fossem respeitados, hoje, nenhum dos psicofármacos seria utilizado por nenhuma pessoa, voluntária ou involuntariamente. Talvez livros como o "Como Sua droga pode ser o seu problema" ajudem alguns de nós a começar a pensar racionalmente sobre psicofármacos.

O texto acima foi retirado do site ANTIPSYCHIATRY COALITION. Infelizmente parece que o site ANTIPSYCHIATRY COALITION está fora do ar. Para ler mais sobre o livro, em inglês, vá para a página Your Drug May Be Your Problem: How and Why to Stop Taking Psychiatric Drugs.

Eu recomendo também que você leia os comentários sobre o livro do site METAPSYCHOLOGY online reviews. Nesse site, quem avalia é o psiquiatra Lloyd Wells. e essa avaliação é contra o livro.

2.9.13

Anatomia de uma epidemia: Aumenta o número de deficientes mentais depois da introdução dos psicofármacos

Trechos do texto extraído do livro ANATOMY OF AN EPIDEMIC, escrito pelo jornalista estadunidense Robert Whitaker. O livro mostra como houve uma epidemia de doença mental (nos Estados Unidos) e como houve um grande aumento no número de pessoas interditadas por doença mental.

Anatomia de uma epidemia:

Psicofármacos e o Surpreendente
Aumento da Doença Mental na América
Robert Whitaker
Cambridge, MA
Ao longo dos últimos 50 anos, tem havido um aumento surpreendente na doença mental grave nos Estados Unidos. A porcentagem de americanos com deficiência por doença mental tem aumentado. (Pessoas interditadas com doença mental.) Quintuplicou desde 1955, quando Thorazine - lembrada hoje como a primeira droga "maravilhosa" da psiquiatria - foi introduzida no mercado.

O número de americanos com deficiência por doença mental quase que duplicou desde 1987, quando Prozac-o primeiro em uma segunda geração de drogas maravilhosas para a doença mental, foi introduzido. Existem atualmente cerca de 6 milhões de americanos incapacitados por doença mental, e este número aumenta em mais de 400 pessoas cada dia. Uma revisão da literatura científica revela que é o nosso paradigma do cuidado baseado em fármacos que está alimentando a epidemia. As drogas aumentam a probabilidade de que uma pessoa se torne doente crônico, e induz novos e graves sintomas psiquiátricos numa significativa porcentagem de pacientes.

A era moderna da psiquiatria tipicamente remonta a 1955, quando clorpromazina,
comercializada como Thorazine, foi introduzida na medicina hospitalar. Em 1955,
o número de doentes mentais em hospitais públicos atingiu uma marca histórica de alta de 558.922 e, em seguida, começou a diminuir gradualmente, e historiadores normalmente creditam este esvaziamento dos hospitais do estado a clorpromazina.

Como Edward Shorter escreveu em seu livro em 1997, "A história da psiquiatria", "Clorpromazina iniciou uma revolução na psiquiatria, comparáveis com a introdução da penicilina na medicina geral "(Shorter, 1997, p. 255). Haldol e outros medicamentos antipsicóticos foram logo levados ao o mercado e, em seguida, antidepressivos e ansiolíticos. A psiquiatria agora tinha drogas que, acreditava-se, eram específicas para doenças específicas, assim como a insulina é para diabetes.

No entanto, desde 1955, quando esta era moderna da psicofarmacologia nasceu, tem havido um surpreendente aumento na incidência de graves doenças mentais neste país. Apesar do número de doentes mentais internados talvez ter ido para baixo, todas as outras métricas utilizadas para medir incapacitantes da doença mental nos Estados Unidos aumentaram dramaticamente. E tanto é assim que E. Fuller Torrey, em seu livro "The Invisible Plague" (Em português: "A Praga Invisível") de 2001, concluiu que a insanidade tinha subido para o nível de uma "epidemia" (Torrey, 2001). Uma vez que esta epidemia tem andado juntinho com o crescente uso de psicofármacos, uma pergunta óbvia surge: Será que o nosso paradigma de cuidados baseados nos psicofármacos está alimentando esta praga da era moderna?

A EPIDEMIA


O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos (US Department of Health and Human Services) usa o termo "episódios de pacientes em cuidado" para fazer a estimativa do número de pessoas tratadas por ano com doença mental. Esta métrica traça o número de pessoas tratadas em hospitais psiquiátricos, instalações residenciais para os doentes mentais, instalações e atendimento ambulatorial.

Em 1955, o governo relatou 1.675.352 episódios de pacientes em cuidado, ou 1.028 episódios por 100.000 população. Em 2000, episódios de pacientes em cuidado totalizaram 10.741.243, ou 3.806 por 100.000 habitantes. Isso é quase um aumento de quatro vezes per capita em 50 anos. Uma segunda maneira de avaliar esta epidemia é olhar para o número de deficientes mentais no país.

Até a década de 1950, o número de doentes mentais internados deficientes era regular. Hoje, os deficientes mentais (interditados mentais) recebem normalmente um benefício, seja do Benefício do Seguro Social ao Deficiente (SSDI, Social Security Disability Insurance) ou do programa Renda de Garantia Suplementar (SSI,Supplemental Security Income), e muitos vivem em abrigos residenciais (como as residências terapêuticas) ou outros meios de habitação financiados pelo governo. Assim, o paciente que estava internado há 50 anos hoje recebe benefícios do seguro social, do SSDI ou SSI, e é essa linha de evidências que revela que o número de deficientes mentais aumentou quase seis vezes desde que Thorazine (clorpromazina) foi introduzido.

Em 1955, havia 559.000 pessoas nos hospitais públicos mentais, ou 3.38 a cada
1.000 pessoas. Em 2003, houve 5 milhões 726 mil pessoas que receberam um pagamento ou do SSI ou do SSDI (ou de ambos os programas), e foram aposentados, quer por doença mental (segundo estatísticas do SSDI) ou diagnosticados como doentes mentais ( estatísticas do SSI). " Essa é uma taxa de incapacidade 19,69 pessoas por 1000 habitantes, que é quase seis vezes o que era em 1955.

É também interessante notar que o número de deficientes mentais tem aumentado dramaticamente desde 1987, o ano que foi introduzido o Prozac. Prozac foi apresentado como o primeiro de uma segunda geração de medicamentos psiquiátricos que diziam que era muito melhor do que as outras gerações. Prozac e os outros ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina)substituiram os tricíclicos, enquanto que os antipsicóticos atípicos (risperidona, Zyprexa, etc.) Substituiram Thorazine (clorpromazina) e os outros neurolépticos comuns.

O combinado das vendas dos antidepressivos e antipsicóticos saltou de cerca de US$ 500 milhões em 1986 para quase US$ 20 bilhões em 2004 (a partir de setembro de 2003 a agosto de 2004), um aumento de 40 vezes. Durante este período, o número de deficientes mentais nos Estados Unidos, como calculado pelos números do SSI e do SSDI, aumentou de 3 milhões e 331 mil pessoas a 5 milhões e 726 mil. Esse é um aumento de 149.739 pessoas por ano, ou 410 pessoas com deficiência recentemente pela doença mental todos os dias.

UMA CAUSA BIOLÓGICA PARA EPIDEMIA


A noção de que psicofármacos trabalham equilíbrando a química do cérebro foi levantada pela primeira vez no início dos anos 1960. Uma vez que se mostrou que Thorazine (clorpromazina) e os neurolépticos padrões podiam bloquear atividade da dopamina no cérebro, os pesquisadores seguiram a hipótese de que esquizofrenia era causada por excesso deste neurotransmissor. Assim, os neurolépticos, por bloquear os receptores de dopamina ajudam a normalizar o sistema dopaminérgico do cérebro. Uma vez que os tricíclicos levantavam os níveis de norepinefrina e serotonina no cérebro, os pesquisadores concluiram que a depressão fosse causada por níveis baixos dessas substâncias químicas cerebrais.

A Merck, entretanto, comercializou seu Ansiolítico, a droga Suavitil como um "estabilizador de humor." Dizer que a droga era estabilizadora sugeria que as drogas fossem efetivamente curativas biológicas de doenças.
No entanto, esta hipótese, que a droga química equilibraria a química anormal do cérebro nunca foi provada. Embora o público ainda seja informado de que a droga normaliza a química do cérebro, a verdade é que os pesquisadores não descobriram se pessoas com esquizofrenia tinham sistema dopaminérgico hiperativo (antes de ser medicado), ou que os pacientes diagnosticados com depressão sofriam com anormais baixos níveis de serotonina ou norepinefrina.

Como o cirurgião geral dos Estados Unidos David Satcher reconheceu no seu relatório de 1999 sobre a saúde mental, as causas dos transtornos mentais "permanecem desconhecidas" (Satchee, 1999, p. 102). No entanto, os cientistas têm conseguido compreender como as drogas afetam o cérebro humano, pelo menos em termos dos seus mecanismos de ação imediata.

Em 1996, o diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH, National Instutute of Mental Health), neurocientista Steven Hyman, estabeleceu um paradigma para entender como todos os psicofármacos funcionam. Antipsicóticos, antidepressivos, e drogas ansiolíticas, ele escreveu, "criam perturbações nas funções dos neurotransmissores" (Hyman & Nestler, 1996, p. 153). Em resposta, o cérebro passa por uma série de adaptações compensatórias. Por exemplo, Prozac e outros antidepressivos ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina) bloqueiam a recaptação da serotonina. Para fazer face a este entrave da função normal, as tonalidades do cérebro baixam todo o seu sistema serotonérgico.

Neurônios liberam menos serotonina e diminuem o seu número de receptores de serotonina. A densidade dos receptores de serotonina no cérebro pode diminuir em 50% ou mais. Como parte deste processo de adaptação, Hyman nota, também há alterações nos percursos da sinalização intracelular a na expressão gênica. Depois de algumas semanas, concluiu Hyman, o cérebro do paciente funciona de uma maneira que é "qualitativamente, bem como quantitativamente diferente do estado normal "(Hyman & Nestler, 1996, p. 161). Em suma, psicofármacos induzem uma patologia.

O neurocientista de Princeton Barry Jacobs tem declarado explicitamente sobre este ponto dos ISRS. Estas drogas, ele disse, alteram o nível de transmissão sináptica fisiológica para além da gama alcançada no âmbito (normal) ambiental / condições biológicas. Assim, qualquer mudança comportamental ou fisiológica produzida nestas condições mais adequadamente podem ser consideradas patológicas, mais do que o reflexo normal de papel biológico da serotonina. (Jacobs, 1991, p. 22)

LEIA TODO TEXTO, EM INGLÊS, NO PDF ANATOMY OF AN EPIDEMIC.

Se você sabe ler inglês, recomendo também o vídeo abaixo. É um trailer do documentário "Take These Broken Wings: Recovery from Schizophrenia Without Medication" (Em português: "Pegue Essas Asas: Recuperação da Esquizofrenia Sem Medicação"). O vídeo tem legenda em inglês. Robert Whitaker também participa deste documentário.

Aviso: não se deve tentar deixar de tomar medicação por conta própria. Para deixar de tomar qualquer medicação psiquiátrica é necessário supervisão médica.

24.5.13

Transtorno Bipolar e sua Biomitologia

Leia a importante entrevista abaixo com um ex-funcionário da Associação Britânica de Psicofarmacologia, e fique sabendo coisas chocantes sobre o "transtorno afetivo bipolar". O especialista nos informa, entre outras coisas, que transtorno bipolar NÃO É a mesma coisa que a doença maníaco-depressiva, como muitos erradamente pensam.

David Healy, um ex-secretário da British Association for Psychopharmacology (Associação Britânica de Psicofarmacologia), é autor de mais de 120 artigos e 14 livros, incluindo The Antidepressant Era (A Era do Antidepressivo), The Creation of Psychopharmacology (A Criação da Psicofarmacologia), e Mania, um novo livro sobre a fascinante história do transtorno bipolar. Sua crítica contra as práticas das empresas farmacêuticas o colocou em desacordo com os colegas da psiquiatria e farmacologia. Ao mesmo tempo, a sua perícia como um líder acadêmico incontestado, pesquisador e médico lhe dá uma perspectiva única sobre padrões e problemas na psiquiatria anglo-americana. Ele concordou recentemente em responder a uma série de perguntas sobre a crescente prevalência e definição alargada do transtorno bipolar.

Parte do que você descreve em seu novo livro "Mania: Uma Breve História do transtorno bipolar" é uma boa parte de "biomitologia" (biomythology) sobre a doença. Quais os aspectos em particular que você tem em mente?

"Biomythology" está ligado a "biobabble", um termo que eu criei em 1999, para se corresponder à expressão amplamente utilizada "psychobabble". (Babble = rumores. Logo, "psychobabble" se refere a falsas afirmações sobre problemas psíquicos, wenfim mitosd sobre doenças mentais) Biobabble se refere a coisas como a suposta redução dos níveis da serotonina e o desequilíbrio químico que dizem estar no centro dos distúrbios de humor, TDAH(Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e de ansiedade. Isto é tão mítico quanto as supostas alterações da libido que a teoria freudiana afirma que estão no centro dos transtornos psicodinâmicos.

Embora a libido e serotonina sejam coisas reais, a forma como esses termos foram usados uma vez por psicanalistas e por psicofarmacêuticos agora, especialmente no jeito como eles têm se diluído na cultura popular, não tem qualquer relação com qualquer nível subjacente de serotonina ou desequilíbrio químico mensurável ou distúrbio da libido. O que é surpreendente é a forma rápida que estes termos foram tomados pela cultura popular, e de uma maneira bem global, com tantas pessoas agora rotineiramente dizendo que seus níveis de serotonina estão descontrolados quando elas estão se sentindo mal ou erradas.

No caso do transtorno bipolar os "biomyths" (biomitos) se centram nas ideias sobre a estabilização do humor. Mas não há provas de que as drogas estabilizam humor. Na verdade, nem sequer é claro que faça sentido falar de um centro do humor no cérebro. Um outro pedaço da mitologia que visa manter as pessoas tomando as drogas diz que estas são supostamente neuro protetoras, mas não há provas de que este é o caso e, de fato, estas drogas podem levar a danos cerebrais.

Como é que o nosso entendimento de "mania" hoje se difere das concepções anteriores do fenômeno?

Transtorno bipolar em si é um pouco uma entidade mítica. Como é empregado agora o termo tem pouca relação com a clássica doença maníaco-depressiva, que obrigava as pessoas a serem hospitalizadas com um episódio da doença, seja depressão ou mania. Os problemas que, atualmente, estão agrupados sob o título "transtorno bipolar" são semelhantes aos problemas que, na década de 1960 e 1970, teriam sido chamados de "ansiedade" e tratados com tranquilizantes ou, durante a década de 1990, teriam sido identificados como "depressão" e tratados com antidepressivos.

Como é que passamos, tão rapidamente, na década de 1990, de um modelo de tratamento psicoterápico para crianças para um modelo de tratamento altamente relacionado às drogas?

Penso que um fator-chave para esta mudança foi a disponibilidade de critérios operacionais. Estes foram introduzidos em 1980 no DSM-III, a 3ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. A ideia foi a de cobrir a brecha entre os psicoterapeutas, por um lado, e os neurocientistas, por outro. Esperava-se que, se ambos os campos pudessem assegurar que os pacientes conseguissem critérios 5 de 9 para depressão, por exemplo, então, pelo menos, o grupo de pacientes seria homogêneo, mesmo se as opiniões sobre o que levou aos problemas não fossem.

Presumia-se, no entanto, que havia lugar para um julgamento clínico, para que uma paciente que reunia 5 dos 9 critérios para depressão, mas tinha gripe ou estava grávida fosse diagnosticada como grávida e não deprimida. Mas, em face da propaganda das empresas, e com o advento da Internet, o julgamento clínico se esvaziou. Pacientes na Internet ou diante dos materiais das empresas farmacêuticas agora facilmente acham que preenchem os critérios para um transtorno e muitas vezes não existe nada nem ninguém que possa dizer-lhes que isto não é o equivalente a ter o distúrbio.

Em casos extremos, tive pacientes com carreiras altamente sociais que vêm falar comigo e dizem que acham que têm síndrome de Asperger, porque eles viram na Internet e acham que eles cumprem os critérios para tal, quando, na verdade, quase por definição , essa pessoa pode não ter Síndrome de Asperger. Na ausência de julgamento clínico existe um padrão para uma opção de um medicamento biológico como solução. Critérios criam um problema para o qual uma droga é muitas vezes a resposta, em apenas da mesma forma que as medições de seus níveis lipídicos criam um problema do qual uma estatina é a solução.

Critérios operacionais estão interagindo aqui com uma certa perda da autoridade médica. Não é possível para uma médica (sic), hoje em dia, dizer a um paciente, "Baseado em meus 15 a 20 anos de experiência, você não tem PSPT(Perturbação de Stress Pós-Traumático)", ou seja o que for. Ela não pode dizer, "Nós não precisamos continuar esta conversa, volte quando você tiver uma formação médica e 15 anos de experiência clínica."

A médica (sic) tem que dialogar com o paciente sobre o nível do material que está lá fora, na cultura popular, e quando ela tenta fazer isso ela vai descobrir que ela está disputando com uma implantação extraordinariamente hábil desses materiais feitos pelo departamento de marketing das companhias farmacêuticas que são mestres em povoar a cultura geral para atender aos seus interesses.

Em meados da década de 1990, você nota, cerca de metade de todos os transtornos do humor foram redefinidos como transtorno bipolar, em vez de depressão. O que você acha que explica essa dramática mudança de perspectiva?

O principal evento em meados da década de 1990 que levou à mudança de perspectiva foi a comercialização de Depakote pela Abbott como um estabilizador do humor. Antes disso, o conceito de estabilização de humor não existia. E, embora em uma popular série televisiva podemos aceitar que Buffy a caça vampiros ganhe uma nova irmã na Temporada Cinco que tinha todo o tempo, mas nós não conhecíamos, não esperamos que isso aconteça na academia.

A introdução da estabilização de humor pela Abbott e outras companhias que pegaram o embalo para comercializar anticonvulsivantes e antipsicóticos foi, de fato, bastante comparável a Buffy obtendo uma nova irmã. Estabilização de humor não existia antes de meados da década de 1990. Não pode ser encontrado em nenhum dos livros anteriores de referência e jornais. Desde então, porém, agora temos seções para estabilizadores de humor em todos os livros sobre drogas psicotrópicas, e mais de uma centena de artigos por ano apresentando estabilização de humor nos seus títulos.

Da mesma forma, a Abbott e outras companhias, como a Lilly comercializando Zyprexa para transtorno bipolar, têm re-estruturado a doença maníaco-depressiva. Embora o termo transtorno bipolar estivesse presente desde 1980, doença maníaco-depressiva era o termo que era ainda mais comumente utilizado até meados da década de 1990 quando desaparece e é substituído por transtorno bipolar. Atualmente, mais de 500 artigos por ano colocam transtorno bipolar em seus títulos.

Você apenas tem que olhar para a Lilly que comercializou Donna nos documentos da internet sobre Zyprexa para ver o que está acontecendo aqui: "Donna é uma mãe solteira, de uns 30 anos, e aparece em seu escritório com roupas um tanto relaxadas e pouco à vontade. Sua principal queixa é "Eu me sinto tão ansiosa e irritada ultimamente." Hoje ela diz que tem dormido mais que o habitual e tem dificuldade para se concentrar no trabalho e em casa. No entanto, em várias consultas anteriores ela estava falante, eufórica, e relatou que tinha pouca necessidade de sono. Você a tem tratado com vários medicamentos, inclusive com antidepressivos com pouco sucesso... Você poderá garantir para Donna que Zyprexa é seguro e que irá ajudar a aliviar os sintomas contra os quais ela está lutando. "

Donna poderia ter destaque nos anúncios de tranquilizantes de 1960 a década de 80, ou de antidepressivos na década de 1990, e teria sido provavelmente mais susceptível de responder a qualquer um destes grupos de tratamento do que para um antipsicótico, e menos provável de ser prejudicado por eles do que por um antipsicótico. O que as empresas de marketing são muito boas de fazer é enquadrar as pessoas que têm sintomas comuns, que quase todos nós temos, numa maneira mais conveniente de conduzir a uma receita para o remédio do dia. É uma afronta para um século de pensamento psiquiátrico ver condições que pacientes como Donna têm como transtorno bipolar. Mas se um século de pensamento psiquiátrico costumava dizer alguma coisa, não diz mais.

Entre 1996-2001, você explica, houve um aumento de cinco vezes no uso de antipsicóticos (Zyprexa, Risperdal, Abilify, Seroquel, e outros) em pré-escolares e pré-adolescentes. Qual o papel que o DSM-IV desempenhou nisso, com a introdução da categoria, ainda controversa, transtorno bipolar II?

O conceito de transtorno bipolar juvenil voa ainda mais em face da sabedoria tradicional em psiquiatria do que em chamar Donna de bipolar. A partir de 2008, mais de um milhão de crianças nos Estados Unidos, em muitos casos pré-escolares estão tomando "estabilizadores de humor" para o transtorno bipolar, embora a condição permaneça desconhecida no resto do mundo.

Não estou certo de quanto DSM-IV(Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais
4º Ed.) desempenhou algum papel nesta mudança. Acho que as empresas teriam encontrado uma maneira de criar essa mudança, mesmo sem a introdução do transtorno bipolar II no DSM-IV.

Então a quanto dessa mudança é atribuível aos antidepressivos ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina)terem perdido a patente enquanto os antipsicóticos eram ainda grandes geradores de lucro?

Acho que este foi, de fato, pivô do que aconteceu. Os antidepressivos poderiam perder a patente enquanto que as drogas anticonvulsivantes eram mais velhas e poderiam ser repatenteadas para esta finalidade, e os antipsicóticos, que também poderiam ser (e foram) comercializados como estabilizadores de humor, iniciavam suas vidas de patentes.

Um ponto que está relacionado e que vale a pena trazer a tona é que a mudança ocorreu porque as empresas não foram capazes de fazer antidepressivos novos e mais eficazes. Se tivessem sido capazes de fazê-lo, acho que eles teriam provavelmente ficado com o modelo de depressão e não teriam feito a mudança para o transtorno bipolar.

Nos termos do que está acontecendo nos EUA, penso que temos de olhar para o modo como as empresas farmacêuticas têm habilmente explorado os médicos. Os médicos até que têm tentado ajudar. Embora as drogas apenas estejam disponíveis mediante receita médica,, os médicos tendem a ver passar um medicamento como um procedimento natural, enquanto que anteriormente tinham sido muito mais céticos sobre os benefícios dos tratamentos medicamentosos.

As empresas farmacêuticas têm arrumado uma situação em que acadêmicos se tornaram os principais oradores para as drogas. Vemos o Representante de vendas no canto e pensamos que podemos resistir facilmente aos seus encantos, mas acabamos deixando que eles dominem totalmente a situação. Mas é o meio acadêmico que vende as drogas. Os médicos que pensam que não são influenciado pelo marketing das empresas ouvem as vozes dos acadêmicos psiquiatras quando estes, no caso dos antidepressivos e antipsicóticos dado às crianças, têm falado sobre dados provenientes de testes controlados, e ao fazer isso eles têm sido, consciente ou inconscientemente, um instrumento para os departamentos de marketing das empresas.

Na sua opinião, a decisão da FDA em 2004 de adicionar advertências em caixa-preta aos ISRSs sobre uso pediátrico levou a mais prescrições off-label e até mesmo a uma guinada em direção aos antipsicóticos, presumindo-se que estes últimos são mais seguros para uso em crianças?

Acho que isto teve muito pouco efeito na mudança de depressão para transtorno bipolar, mas o que foi bastante surpreendente foi a rapidez em que as empresas foram capazes de utilizar a opinião dos poucos bipolarologistas (sic) que argumentavam que quando as crianças tornavam suicidas com antidepressivos não é a culpa da droga. O problema, eles diziam, decorre de um diagnóstico equivocado e, se pudéssemos apenas obter o diagnóstico correto e colocar a criança para tomar estabilizadores de humor, então não haveria problema.

Não há provas para esse ponto de vista, mas foi interessante ver como de apoio das empresas poderia pôr vento nas velas de uma tal perspectiva.

Também foi interessante ver como as pessoas ficavam meio delirantes por causa de uma ideia desta. Confrontados com detalhes, como voluntários saudáveis ficando suicidas ao tomar antidepressivos, dedicados "bipolarologistas" estavam prontos a dizer que isto só mostra que estas pessoas normais são bipolares latentes.

Neste caso, penso que a maioria das pessoas vai ver que "bipolaridade latente ", como um conceito, está funcionando um pouco como a forma latente da homossexualidade uma vez funcionou para os Freudianos. A maioria das pessoas também verá que o primeiro conceito é impossível. O que as empresas têm feito é passar um megafone para as mãos dos defensores desse ponto de vista sobre transtorno bipolar, que era até muito recentemente uma rara minoria.

E são os antipsicóticos na verdade mais seguros que antidepressivos?

Não, eles não são. Os antipsicóticos são tão perigosos quanto os antidepressivos. Antes da introdução dos antipsicóticos, as taxas de suicídio na esquizofrenia eram extremamente baixas, eram difíceis de diferenciar do resto da população. Desde a introdução dos antipsicóticos as taxas de suicídio subiram 10 - ou 20 vezes.

Muito antes de que os antidepressivos fossem relacionados a acatisia, os antipsicóticos eram universalmente reconhecidos como causadores desse problema. Também foi universalmente aceito que a acatisia que eles causavam tinha o risco de induzir o paciente ao suicídio ou à violência.

Eles também causam uma dependência física. Zyprexa está entre as drogas mais susceptíveis de fazer que as pessoas se tornem fisicamente dependentes dela. No que me diz respeito, a licença do Zyprexa para a suposta manutenção para tratamento de transtorno bipolar resulta de dados que são de fato excelente prova para o que provoca dependência física e os problemas que podem surgir quando o tratamento é interrompido.

Além disso, naturalmente, estas drogas são conhecidas por causar uma variedade de síndromes neurológicas, diabetes, problemas cardiovasculares, e outros problemas. É difícil compreender o quão cegos clínicos podem ficar para problemas como estes, em especial nos jovens que crescem e se tornam obesos e diabéticos bem diante de seus olhos.

Mas temos um campo que, quando confrontados com o óbvio, em vez disso optou por ouvir as vozes de Eli Lilly dizendo: "Oh não, não há qualquer problema com Zyprexa. A psicose é o que provoca diabetes - Henry Maudsley reconheceu isso 130 anos atrás". Bem, Henry Maudsley odiava pacientes, e viu pouquíssimos deles num tempo em que o diabetes era raro. Recentemente, olhamos para as admissões do Hospital de North Wales no período 1875-1924, vasculhando sua carreira, e entre os mais de 1200 casos admitidos por doença mental grave, ninguém tinha diabetes e ninguém passou a desenvolvê-la.

Também analisamos as admissões para a unidade local de saúde mental entre 1994 e 2007, e em mais de 400 internações primeiro ninguém tinha diabetes de tipo 2, mas o grupo como um todo passou a desenvolver diabetes em dobro da taxa nacional.

Isto não é surpreendente. O que é impressionante é como o campo inteiro engoliu a linha da Lilly, especialmente quando ela era tão implausível para começar. Tivemos grandes dificuldades para fazer que este artigo fosse publicado. Um jornal se recusou mesmo a revê-lo.

Uma forma de levantar um perfil de transtorno bipolar em crianças, você nota, era argumentar que elas tinham sido mal diagnosticadas com TDAH. Quais foram as implicações e os efeitos dessa solicitação?

No caso das crianças com TDAH, acho que precisamos observar é que na maior parte do mundo até muito recentemente (e ainda em países como a Índia), TDAH é um transtorno muito raro em que as crianças, geralmente meninos, são fisicamente muito hiperativos. Esta é uma condição que eles superam em sua adolescência. Tratamento com estimulantes pode fazer a diferença em casos como este. Se o tratamento é sempre necessário, no entanto, pode depender das circunstâncias da criança, por oposição à natureza de qualquer suposto condição.

É só num mundo onde escolaridade ou a adesão a um determinado conjunto de normas sociais é obrigatório que uma condição como TDAH se torna um transtorno. Houve uma maior tolerância ao longo de um século atrás do que existe atualmente para as crianças fazerem outras coisas na infância, e aguardarem até que se estabelecessem na adolescência, sem serem tratadas, para sua condição.

O que temos hoje não é TDAH como era classicamente entendido, mas sim um estado de coisas que temos tido ao longo dos séculos, que é o da "criança problema." Hoje, a criança problema é rotulada como tendo TDAH. Mas ter apenas um rótulo é muito limitante. A psiquiatria infantil (pedopsiquiatria) precisava de um outro distúrbio, e por esta razão a doença bipolar foi bem-vinda.

Nem todas as crianças acham os estimulantes adequados, e assim como com os ISRS e o transtorno bipolar, tornou-se muito conveniente dizer que os estimulantes não foram a causa do problema que a criança estava experimentando, a criança tinha na verdade um distúrbio diferente e, se pudéssemos apenas obter o diagnóstico correto então tudo ficaria no lugar.

Uma fenômeno fascinante, neste momento, é um claro efeito "looping" do TDAH em adultos. Muito recentemente as orientações(guidelines) para TDAH da NICE [National Institute for Health and Clinical Excellence] da Grã-Bretanha saiu e declarou que TDAH em adultos é um transtorno clínico válido. Estou certo de que há alguns anos, 85 a 90 por cento dos médicos do Reino Unido não teria pensado que TDAH em adultos era um transtorno clínico válido. Seria de se esperar que as orientações fossem um pouco conservadoras, mas neste caso o que parece que se vê é o processo das guias sair à frente no campo, levando os clínicos em uma direção que parece ser bastante surpreendente.

As empresas farmacêuticas compreendem muito bem que essas orientações que estão construindo devem ser neutras em termos de valor e seguir os dados. Isto significa que eles podem facilmente criar testes que podem mostrar vantagens mínimas para o seu medicamento para uma condição que eles chamaram de "TDAH adulto." Os autores das orientações têm pouca opção senão suspender a sentença e aceitar que a condição colocada deve ser real. Assim, por exemplo, como Lilly obteve, eles acabam aprovando a utilização de um agente como Strattera.

O que é surpreendente sobre a atual situação é que parece ser quase impossível chegar aos autores das orientações, que estão sentados no meio da estrada, imobilizados pelos faróis que chegam, fora do caminho dos farmacêuticos poderosos. Você pode mostrar como estão sendo manipulados, mas eles dão de ombros e perguntam, "O que podemos fazer?"

Começamos recentemente a um inquérito, aqui no Norte do País de Gales, olhando para os aspectos da situação. Em resposta a perguntas, aqui clínicos indicaram que três anos atrás estavam bastante certos de que eles não teriam utilizado TDAH adulto como uma condição válida, mas eles antecipam que daqui a três anos a eles provavelmente vão. Acho que isso mostra uma apreciação realista das habilidades das empresas para mudar o clima em que a prática clínica acontece, e da relativa futilidade de tentar se levantar contra tais mudanças.

Você tem que tratar pacientes reais. O que você diz a eles sobre estas condições e as suas opções do tratamento?

Muitos médicos, cientistas e pacientes ouviram falar do pós-modernismo. Eles já devem ter ouvido críticas das empresas contra alguém como eu, dizendo coisas como "Não dê ouvidos a ele, ele não passa de um pós-modernista". A implicação é que se trata de pós-modernismo, mas um distúrbio psiquiátrico, no seu próprio direito, em que professores universitários como eu recusam a admitir que haja qualquer realidade para o comportamento humano ou implicações físicas dos transtornos do comportamento humano. Em contrapartida, a história vai, lá estão os cientistas que trabalham no duro, para empresas farmacêuticas ou com empresas farmacêuticas que lidam apenas com fatos e dados duros, e a prova é que eles trazem novas drogas úteis para o mercado.

Bem, acho que a história de Donna acima ilustra é que os departamentos de marketing das empresas farmacêuticas que são, na realidade, pós-modernistas por excelência. Eles tratam o corpo humano (incluindo os seus transtornos e reclamações), como textos, que deve ser interpretado de uma forma este ano e de uma forma totalmente oposta em um ano ou dois mais tarde.

Em contrapartida, quando se trata dos perigos das drogas, assim como as empresas tabaqueiras, antes deles, o lema da indústria farmacêutica tornou-se "dúvida é o nosso produto", eles simplesmente se recusam a admitir que as suas drogas estão ligados a qualquer perigo em absoluto. . . até que a droga perde a patente. Você não pode obter uma melhor definição de pós-modernismo que "dúvida é o nosso produto."

Então, a questão de quais tratamentos são melhores: estou muito feliz que os pacientes que vem me ver que, em geral obtêm tratamentos mais eficazes e seguros para seus problemas do que eles obtêm de médicos que aderem às últimas orientações. O problema é que basta apenas eu tropeçar uma vez e ter um grande problema, enquanto que atrocidades podem ser cometidas do outro lado, sem ninguém vir a ser incomodado.

David Healy é o autor de 14 livros, incluindo o A Era do Antidepressivo, A Criação da Psicofarmacologia, Let Them Eat Prozac: The Unhealthy Relationship between the Pharmaceutical Industry and Depression (Deixe-os Comer Prozac: As Relações Nada Saudáveis Entre a Indústria Farmacêutica e a Depressão), e, mais recentemente, Mania: A Short History of Bipolar Disorder (Mania: Uma Breve História do transtorno bipolar). Christopher Lane é o autor mais recentemente de Shyness: How Normal Behavior Became a Sickness (Timidez: Como Um Comportamento Normal Se Tornou Uma Doença.

Entrevista do especialista em psicofarmacologia, David Healy. Leia a entrevista completa em Bipolar disorder and its biomythology: An interview with David Healy