10.4.14

Professor Jean Boorsch (A verdadeira vida de Ezequiel)

O Professor Jean Boorsch nasceu em Anzin, França, no ano 1906, e morreu no dia 23 de março de 2008, com 102 anos de idade.

Não existem muitas informações sobre o Professor Jean Boorsch, pois o trabalho dele era considerado ULTRA SECRETO, ou CLASSIFIED TOP SECRET, como os norte-americanos dizem.(Image Reproduced from the site http://deadfrontier.wikia.com/wiki/Dead_Frontier_Wiki.)

O Professor Jean Boorsch ensinava francês a soldados dos Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial. Ele desenvolveu o "Méthode Orale de Français", que era ensinado aos soldados (eu uso a palavra "soldado" para me referir tanto a soldados rasos, quanto a oficiais). Com o curso, os soldados estadunidenses eram capacitados a se comunicar com franceses e franco-canadenses durante a Segunda Guerra Mundial, facilitando assim o domínio dos estadunidenses.

Várias pessoas que eu conheci tiveram a oportunidade de ser apresentadas ao francês na escola fundamental, na educação pública. Não foi o meu caso. A língua estrangeira passada como matéria escolar para mim sempre foi o inglês. Mas por puro acaso do destino, eu me tornei aluno do Professor Jean Boorsch.

O método parece simplesmente não funcionar à primeira vista, o que desanima a maioria dos estudantes. Mas a eficácia do curso é muito grande. Os resultados são muito mais rápidos que os cursos comuns. Desnecessário dizer que, para os soldados, era acompanhar o curso, ou ir DIRETO para a cadeia!

Na época em que um de meus irmãos ia se apresentar para o exército, ele pediu que eu passasse alguns exercícios físicos para ele. Ele estava tendo dificuldades para fazer flexões de braço. Eu apenas disse que ele estava apenas sendo MOLE, pois é claro que, se ele se esforçasse mais, ele conseguiria.
"No exército, eles não aceitam não como resposta", eu comentei.
De fato, depois que entrou no exército, ele passou a fazer flexão LOGO, LOGO...

O método do Professor Jean Boorsch funciona muito bem e é bem mais rápido que todos os outros métodos, mas é preciso ter DISCIPLINA. Nas Forças Armadas dos Estados Unidos, essa disciplina era EXIGIDA dos soldados por seus superiores sob pena, em caso de falta de disciplina.

Eu fui aluno do Professor Jean Boorsch, mas não tive ninguém para me incentivar a perseverar com disciplina, pois eu fui um aluno INDIRETO do Professor Jean Boorsch.

O "Méthode Orale de Français" do Professor Jean Boorsch deu origem ao curso "French in Action", o "Francês em Ação", ministrado pelo também Professor Pierre Capretz. Esse curso que eu assisti; e que foi a base de meu conhecimento de francês, e a base de todo meu conhecimento de idiomas.

Continua na postagem Professor Pierre Capretz.

Os preconceitos absurdos de nossa sociedade (A verdadeira vida de Ezequiel)

De meu diário:


30/12/1990

Fui pro trabalho às 06:07, cheguei lá às 07:50. Comecei meu trabalho alegremente. Depois fui fazer uma entrega na Xavier da Silveira 40/805 (Rua Xavier da Silveira, número 40 apartamento 805, Copacabana, Rio de Janeiro).

Fiz a entrega e um guarda me parou quando eu estava olhando revistas de... (vou pular esta parte). E aí ele disse:
O que está fazendo aí?!
Resposta:
Nada!
O guarda outra vez:
O que tem no teu bolso?
Eu:
- Lenços!
E aí ele botou a mão na minha carteira:
Tira aí para mim.
Ele olhou e viu que não tinha nada de errado.
Eu:
Eu trabalho na farmácia. Quer ir lá?
Ele:
Você roubou isso da farmácia?
Eu:
Não!
E o outro lado? - Disse o guarda.
Minha carteira. - Respondi eu.
O guarda:
- Nunca vi ninguém com duas carteiras...
Era carteira mesmo, é claro, mas ele insistiu em olhar. Não encontrou nada de errado e devolveu tudo.



(Meu diário. Clique aqui para abrir a imagem de meu diário de 13 anos de idade em outra janela, onde você poderá clicar para visualizar a imagem em tamanho maior.)

Esse texto de meu diário de 13 anos revela os preconceitos absurdos de nossa sociedade que eu não entendia na época:
Por eu ser um garoto pobre e negro eu SEMPRE era um suspeito em potencial de ser um ladrão.

Um dos momentos mais decepcionantes de minha vida foi quando eu estava andando com uma moça que trabalhava comigo e havia umas 3 crianças pobres por perto, crianças pobres como eu era na época que eu tinha 13 anos. Ela disse algo como:
- Tem uns pivetes ali. Vamos andar mais rápido, pois eu não quero ser assaltada.
Eu respondi, de fato, surpreso:
- São crianças. É nosso dever cuidar delas e protegê-las.
O que eu queria dizer para ela e não disse é que não devemos ficar pensando que todas as crianças pobres são criminosas. Ser pobre NÃO É CRIME.

Aliás, fica uma dica:
hoje em dia, os batedores de carteira e mesmo os assaltantes à mão armada fazem seus assaltos muito bem vestidos, pois já conhecem esses preconceitos tolos e tiram VANTAGEM disso.

Pra terminar, mais um dia registrado em meu diário de 13 anos de idade:

31/12/1990

Querido diário, hoje eu fui trabalhar, mas só porque eu fiz uma piadinha, a Jane (caixa da farmácia onde trabalho) ficou furiosa e disse que não ia me dar entrega. Mas é claro que era brincadeira, afinal hoje é o último dia do ano, né?


Coloquei o dia 31 de dezembro de 1990 de meu diário apenas para salientar que o garoto negro que era visto como ladrão em potencial trabalhava até o último dia do ano...

(Publicado originalmente no dia 04 de janeiro de 2014, atualizado no dia 10 de abril de 2014.)

9.4.14

Polução noturna (A verdadeira vida de Ezequiel)

Eu tinha 13 anos, era 1990, e eu chegava atrasado em meu trabalho em Copacabana. Diante da reclamação do patrão, eu justifiquei:
- Senhor, eu estou chegando atrasado porque eu tive uma polução noturna.
- "Poluição noturna"? Que é isso?
Naquela época eu achava que todos os adultos sabiam o que era polução noturna. Eu pensei que o patrão estivesse brincando, fingindo que não sabia. Hoje em dia eu sei que a maioria da população está desinformada sobre esse assunto.
- Ora, Senhor, polução noturna é quando a gente sonha que está fazendo sexo com uma mulher e acorda todo melado.
- Ah... então a pessoa fica poluída!
- Não, Senhor. É "polução", e não "poluição".

De fato, a grande maioria das pessoas não sabe o que é polução noturna, pois sexualidade humana continua sendo um TABU, apesar das pessoas gostarem de se reunir para se gabar de sexualidade, como se fossem criancinhas se gabando por ganhar no pique esconde.

A polução noturna é um momento complicado e assustador na vida de um pré-adolescente. Ao acordar melado com uma substância grudenta que a gente sequer sabe o que é, a gente fica assustado e se faz várias perguntas. A gente faz perguntas a si mesmo, pois com quem poderíamos falar sobre isso?

Mesmo na escola, eu já tinha observado que a professora de Ciências falava sobre a sexualidade toda sem jeito.
Foi interessante um momento em que a Jussara, uma coleguinha mais esperta, perguntou sobre o órgão sexual feminino e como saber o lugar certo para inserir o pênis. A professora ficou vermelha e a classe começou a rir.
Outro coleguinha perguntou qual órgão sexual ela achava mais bonito. Até hoje eu me pergunto porque foram perguntar aquilo para a professora. A professora, coitada, cada vez mais vermelha respondeu que ambos órgãos sexuais são muito bonitos.
Porém, em nenhum momento a professora falou CLARAMENTE sobre as mudanças que ocorrem na adolescência.

Sinceramente, eu acreditava que na escola iam explicar tudo sobre sexualidade. Como eu fiquei decepcionado. Foi na adolescência que eu percebi o quanto nossa sociedade é fechada ao sexo, como se sexo fosse errado. Ainda adolescente, eu percebi que as escolas deveriam fornecer acesso a informações sobre sexo às crianças e adolescentes, os professores deveriam REALMENTE evitar falar diretamente sobre sexo, mas permitir acesso a livros sobre o tema. Pois quando um professor começa a falar diretamente sobre sexualidade, resulta o que aconteceu em minha turma:
A professora fica sem jeito, e mesmo se a professora ficasse descontraída e natural, seria complicado lidar com as cantadas dos alunos, que foi o que minha professora sofreu. (Ela era bem séria, sisuda. Eu mal acreditei quando a vi toda vermelha...)

Eu tive que pesquisar e descobrir sobre polução noturna sozinho ainda garoto; por isso hoje em dia, eu escrevo sobre sexualidade. Pois sei que estarei ajudando muitos adolescentes que buscam informações sobre esses momentos complicados, numa sociedade ainda afundada por tabus.

4.4.14

Dignidade humana esquecida em algum lugar fora dos manicômios

"Já fui paciente desta clínica e realmente o descaso é gritante além de maus tratos, abusos sexuais entre os internos e muitas outras coisas que soam chocantes. Os pacientes são tratados como lixos humanos."

"...AMBIENTE SUJO COMIDA DESPROVIDA DE NUTRIÇÃO PÉSSIMAS CONDIÇÕES DE HIGIENE E TANTO FUNCIONÁRIO COMO PACIENTE SOFREM ALI DENTRO. SÃO 72 PACIENTES PARA UM TÉCNICO DAR CONTA E A ADMINISTRAÇÃO FALA QUE FALTAM RECURSOS. AQUILO LÁ DEVE FECHAR SIM, SOU TOTALMENTE A FAVOR..."

"...não existe um tratamento adequado para as patologias...só dopamento e contimento(amarrar o paciente à cama e dar injeção que o deixa babando feito cachorro de tão dopado. A clínica bom viver, de clínica só tem nome, pois mais parece uma cadeia, psicólogos, técnicos, enfermeiros, apoios e médicos são coniventes com o que acontece lá. Pois quem não for é demitido."

Maus tratos e abusos sexuais. Os relatos falam tudo. O primeiro e o terceiro relato são de pacientes, o segundo, de funcionário.

Você pode ver os comentários na postagem Clínica Santa Izabel: Denúncias contra o hospício do Espírito Santo.

Manicômio na minha visão é qualquer hospital psiquiátrico que mantenha pacientes contra sua vontade. Não adianta colocar nome bonito se a prática medieval continua.

Se não fosse pelas condições totalmente ABSURDAS desses manicômios, eu ficaria por lá mesmo. Nenhuma dessas instituições psiquiátricas têm condições. Eu não culpo os funcionários pela situação catastrófica, pois sei que os grandes responsáveis por essa calamidade pública são os chefões. Apenas acho inconsequente da parte de alguns funcionários tentar defender um sistema tão corrupto. Eles deveriam fazer greves, protestar por mudanças, e não tentar passar a ideia de que a coisa está funcionando. Psicólogos, técnicos, enfermeiros, apoios e médicos que não denunciam essa desumanidade são coniventes.

Eu nunca me senti muito disposto a competir com pessoas, não gosto de competições, e a vida hoje em dia é uma competição, pessoas tentando provar que são melhores, que estão mais certas, etc. Os surtos que eu tive foram TERRÍVEIS de se ver e de se lembrar, portanto eu não faria muita questão de voltar à sociedade e encarar as pessoas. Mas pior do que encarar as pessoas seria ficar no tipo de lugar em que eu estava, sujeito não apenas aos maus tratos, mas tendo que ver todo tipo de abuso sexual covarde e não podendo fazer nada. Eu saí daquele lugar para mudar aquela situação. Eu sempre me perguntei o que os doutores pensariam naquele momento se eu deixasse que eles soubessem que eu só estava saindo de lá para batalhar para acabar com essa pouca vergonha que são os manicômios.

Diante desse mundo de competições tolas, eu sinceramente preferiria me isolar, mas me isolar ao ponto de ser tratado como LIXO HUMANO e ver outras pessoas sendo tratadas como lixo humano NÃO DÁ. Também não dá para aceitar as residências terapêuticas, que sinceramente, lembram-me campos de concentração, não que os pacientes sejam castigados fisicamente ou trabalhem com fome ou esse tipo de privação dos campos de concentração. Mas nessas residências terapêuticas, as pessoas são ensinadas a esquecer o que é dignidade humana, praticamente sofrem lavagem cerebral ao ponto de achar normal viver sem poder ter uma esposa, ou no caso das pacientes, um marido. Isso vai além do que eu posso aceitar. não posso aceitar pessoas sendo curateladas por toda a vida. Isso é desumano. Seria mais humano se psicólogos e profissionais treinados não convencessem os pacientes que está ótimo e melhor que antes!

Infelizmente, essa é uma tradição. Ao sair do manicômio em 2001, um irmão queria me aposentar e um outro dizia que eu ia ter algum responsável por mim por toda a vida. Tempo depois eu fui empregado numa ONG e eles puderam ver que eles estavam errados.

Diante da dignidade perdida dessas pessoas, probleminhas românticos de orgulhos feridos não passam de bobagem. Eu não acredito que alguém possa AMAR e não perceber o pavor óbvio dos que são isolados nessas instituições. Não é possível amar sem sentir o óbvio. No entanto, quanto tempo as pessoas levarão para entender que é hora de deixar seus pequenos problemas de lado e olhar para essas pessoas?

Uma coisa que realmente me faz desejar que eu estivesse isolado é saber que no decorrer de minha vida, várias pessoas verão, pelos meus atos, que elas estavam erradas. Mas por outro lado, não tenho dúvida que manicômio não tem mais condições de existir. Não podemos nos considerar civilizados enquanto essa instituição existir.

3.4.14

Will Smith: "Nunca minta! Não tenha medo de morrer pela verdade."

"Nunca minta, roube, trapaceie ou beba."

No inglês, a palavra "lie" tem dois significados: "MENTIR" e "DEITAR-SE". Daí, Will Smith fez um trocadilho em inglês impossível de ser colocado em português:

"Never lie. But if you must lie, lie in the arms of the one you love."

"Não tenha medo de morrer pela verdade. A verdade é a única coisa que sempre será constante."

Ou seja, você pode mudar qualquer coisa em sua vida, tudo pode mudar, mas a verdade será SEMPRE uma só. Não importa o que você diga ou faça, não importa o que digam ou façam.

A mentira estraga relacionamentos mais do que qualquer coisa. Eu entendo que é humano mentir, como é humano errar, persistir no erro é aceitável, pois talvez a pessoa tenha dificuldade demais para aprender. Mas persistir na mentira, não dá para tolerar. Se você persistir na mentira, você atrairá para sua vida pessoas que persistem na mentira; e em certo momento, na sua vida apenas restará pessoas que persistem na mentira, sua vida será uma mentira.

Pois quem ama a verdade prefere perder TUDO (ENTENDEU?) a ter que tolerar mentira. Espero que você entenda e não afaste definitivamente de sua vida um relacionamento, talvez um amor, talvez um parente, talvez um familiar, talvez um amigo...


Original quotes in English, for reference only.

“Never lie, steal, cheat, or drink. But if you must lie, lie in the arms of the one you love. If you must steal, steal away from bad company. If you must cheat, cheat death. And if you must drink, drink in the moments that take your breath away.”
― Will Smith

“You can't be scared to die for the truth. The truth is the only thing that is ever going to be constant.”
― Will Smith

Theme song of the post: Spandau Ballet - True

2.4.14

"Pretendo fazer um mestrado sobre o uso de psicotrópicos e os acidentes de trânsito" O emocionante relato de Carla

Meu nome é Carla, visitei sua página na internet e confesso que senti muito alívio. Eu (...) sou servidora pública, (...) após realizar algumas denúncias de corrupção no órgão em que trabalho, passei a ser assediada moralmente. Olha que já enfrentei muita derrota nessa vida, perdas, doenças, frustrações, privações, enfim... Mas nunca tive depressão, nunca precisei recorrer a um psiquiatra.

Depois das humilhações que passei no meu trabalho, decidi ir a um psiquiatra para pegar um encaminhamento a um psicólogo (pelo meu plano de saúde esse procedimento é obrigatório). (...) Após contar a ansiedade que eu estava sentindo ele me receitou um ansiolítico e um remédio para dormir e disse que minha doença era tão real quanto um braço quebrado. Na fragilidade em que eu me encontrava pensei: “ braço quebrado não se resolve com conversas, vou tomar os remédios”. O médico só receitava marcas, me deu amostras grátis, disse que a minha vida mudaria, que eu iria me redescobrir. Fiquei animada. De repente minha agitação nata poderia ser eliminada.

Comecei com a medicação. No prazo de uma semana estava oito quilos mais magra. Tinha lapsos de memória, desenvolvi anorexia e bulimia. Nada parava no meu estômago. Comecei a ter desmaios, visão nebulosa, surtos de agressividade e ideias suicidas (eu sempre ameiiiiiiii a vida). Minha mãe ficou desesperada. Eu chorava copiosamente dia e noite. Meu rosto se deformou de tanto inchaço. As minhas pernas estavam pretas de hematomas das quedas que eu levava. Tive que cortar os cabelos porque não conseguia mais desembaraçá-los. Uma noite entrei em estado de pré coma. Minha vida virou um inferno.

Retornei ao psiquiatra dia 05 de dezembro. Contei tudo o que estava acontecendo. Minha mãe estava no consultório comigo. O médico, para nosso espanto, me passou mais cinco medicamentos tarja preta, disse que eu engordaria 10 quilos até o dia 29. Eu saí com mais duas doenças novas, dentre elas a depressão. Ele teve a cara de pau de afirmar que eu tinha depressão oculta desde que nasci e que só foi revelada após eu iniciar a medicação. Para completar me receitou um remédio para esquizofrenia, que segundo ele só servia para dormir.

Resumo: saí do consultório com uma sacola de amostras grátis de drogas. Joguei tudo no lixo e decidi me livrar daquilo de vez. Eu mal sabia que o inferno só estava começando. Tive alucinações, ouvia pessoas se enforcarem do meu lado. Não me segurava nas pernas, sentia um punhal perfurando minha garganta, meu corpo inteiro formigava. Morro de pena da minha mãe que teve que presenciar tudo isso, logo eu, que nunca sequer fumei maconha...

No dia 9 decidi acabar com a minha vida. Chorei muito pedindo perdão a Deus, mas eu não suportava mais aquela infinita dor que eu desconhecia. Caí na cama exausta e acabei dormindo enquanto eu decidia como iria morrer. Nisso eu tive um sonho, meio pesadelo, que parecia mais uma dessas alucinações.
(...)

Acordei suada e aos prantos. (...) Acordei querendo devorar o mundo de fome. Uma amiga me apresentou a acupuntura e o uso de florais. Nunca mais caí, recuperei o peso e a memória. Sinto-me muito feliz e agradecida...
(...)

Cheguei a ir em uma psicóloga que me disse que eu não posso mudar o mundo, me aconselhou a não me aborrecer com o desvio de dinheiro público que acontecia debaixo das minhas fuças. Porém a minha consciência não me permite ignorar certas coisas, por mais que eu seja a primeira a me ferrar com a minha indignação. Quer saber, quem precisa de tratamento é ela que sofre com o transtorno da conformidade e o psiquiatra, que sofre com o transtorno da avareza.

Hoje, tão pouco tempo depois, sinto imenso orgulho de quem sou. Não precisamos “curar” a nossa personalidade. Quase fui levada a morte por querer fazer o que é certo, enquanto os normais vivem suas futilidades sem grandes crises existenciais. Busco auto conhecimento para me auto aceitar melhor a cada dia. Nunca mais vou permitir que um estúpido diplomado venha me dizer que as minhas peculiaridades são doenças. Conselhos são apenas uma forma travestida de bondade para praticar a intolerância.
Hoje tenho um plano para tentar impedir aquele traficante de jaleco de continuar envenenando as pessoas. (...)

Graças a Deus saí dessa sem maiores sequelas. Não troco minha ansiedade por droga nenhuma no planeta. Só pra constar, o concurso que fiz para analista contava com apenas uma vaga e foram quase mil concorrentes por ela. EU CONSEGUI!!!!!!!!!!!!!!! Porque acreditei em mim e nos meus ideais. É por eles que sou tão feliz, é por eles que Deus me ajuda, é por eles que humanos idiotas me rotularam de louca.
Continuo de licença médica, mas pretendo voltar o mais rápido possível. Sei que a luta vai ser difícil, já estou sabendo que as minhas chefias estão aconselhando meus colegas a se afastarem de mim alegando que sou desequilibrada. Mas nada como estar lucidamente ansiosa e alegre para voltar ao “combate”. Depois que fui ao inferno e voltei tenho novo gás.

Pretendo fazer um mestrado sobre o uso de psicotrópicos e os acidentes de trânsito, (...) quero investir pesado nisso. Muitas pessoas devem estar perdendo suas vidas nas ruas desse país em decorrência direta ou indireta do uso de “drogas lícitas”. Quero encabeçar uma campanha nacional para alertar as pessoas sobre essa indústria mortífera da padronização de condutas e temperamentos. Imagina se todos os artistas, cientistas, historiadores etc fossem a um consultório psiquiátrico e/ou psicológico tratar de suas excentricidades???????????? O mundo com certeza seria mais tedioso e menos encantador.

Em suma, é um prazer poder dividir um pouco da minha experiência com você. Quero agradecê-lo por postar suas opiniões tão pertinentes na internet e com isso ajudar milhões de pessoas como eu, que sentem-se acolhidas ao perceber que não estão sós nessa forma de enxergar a medicina mental.
Desculpe a imensidão dos meus escritos (e olha que resumi hehehehehehe) mas não consegui ser mais sucinta. Tomara que o DSM não tenha nenhum registro referente ao uso demasiado de palavras.
Um abração enorme.
Sigamos loucos, mas sigamos felizes e honestos. Os normais que se explodam em suas mediocridades.

Nota: Eu omiti algumas coisas com reticências. Eu recebi este e-mail de Carla em 2012. Demorei todo esse tempo para publicá-lo porque precisava selecionar cuidadosamente o que seria melhor publicar e o que poderia ficar de fora. Sem dúvida, foi um dos mais emocionantes relatos que já recebi. Em minha batalha contra o preconceito, a discriminação e as prescrições exageradas de psicotrópicos, sempre me senti muito sozinho.

Pessoas como a Carla, a Ana Luiza, entre outros, me dão mais força. Volta e meia eu me canso de desenvolver estratégias para lidar com o enorme preconceito que sofro da parte de familiares.

Ana Luiza escreve em inglês, nos blogs Hella Heaven e JustAna, mas realmente eu acredito que ela deveria escrever em português, para tentar informar os brasileiros e todos que falam somente português. Muita das coisas que eu publico aqui eu tomo conhecimento nos blogs dela.

O plano de Carla de fazer um mestrado sobre o uso de psicotrópicos é fantástico. Essa é a melhor forma de criar conscientização no campo acadêmico.

A Cara do Fuehrer (tradução de "Der Fuehrer's Face")

Nada lembra mais Adolf Hitler do que a forma que o sistema psiquiátrico trata seus pacientes. A tradução da canção que satiriza o Hitler é um bônus para os leitores regulares, antes de eu começar a "aperrear" contra o sistema psiquiátrico.

"Der Fuehrer's Face", "A Cara do Fuehrer"
"Fuehrer" quer dizer "Líder" em alemão. A música em inglês usa palavras em alemão, por isso, decidi não traduzir algumas palavras em alemão, apenas explicando-as em notas adicionais.

A Cara do Fuehrer (tradução de "Der Fuehrer's Face")
Quando a Fuehrer* diz
"Nós é o raça superior!"
Nós "HEIL**", "HEIL" bem na cara do Fuehrer
Não amar a Fuehrer é uma grande desgraça
Por isso nós "HEIL", "HEIL", bem na cara do Fuehrer

Quando Herr Goebbels*** diz
"Nós dominamos a mundo e o espaço"
Nós "HEIL", "HEIL", bem na cara do Herr Goebbels
Quando Herr Goering**** diz
"Eles nunca vão bombardear esta lugar"
Nós "HEIL", "HEIL", bem na cara do Herr Goering

Nós não é as super homens?
Super homens arianos puros
Ja******, nós é as super homens
Super, ultra, super homens
Este Malucolândia não é bom demais?
Vocês o deixariam se pudessem?
Ja, este Malucolândia é bom
Nós o deixaríamos mas se nós pudéssemos!

Nós trazemos ao mundo a nova ordem
Heil Hitler, a ordem dourada!
Todo mundo de raça estrangeira
Amará a cara do Fuehrer
Quando trouxermos para a mundo DESORDEM!

Quando a Fuehrer diz
"Nunca seremos escravos!"
Nós "HEIL", "HEIL",
Mas ainda assim trabalhamos como escravos

Enquanto a Fuehrer se gaba,
E mente, e aperreia, e resmunga
Nós "HEIL", "HEIL",
E trabalhamos até o nosso túmulo

Quando a Fuehrer grita
"Eu preciso de mais projéteis!"
Nós "HEIL", "HEIL",
Por ele nós fazemos mais projéteis
Se um projetilzinho o mandasse DIRETO para o... (BUM!)
Nós "HEIL", "HEIL", e isso não seria maravilhoso?


Notas adicionais:
*a Fuehrer*, usado para indicar que o artigo em inglês foi pronunciado incorretamente pelos nazistas, uma forma dos cantores ironizarem. Toda vez que o artigo ou pronome demonstrativo for pronunciado errado em inglês, eu mudo o gênero da palavra em português.
HEIL** significa "Salve" ou "Saudações".
Herr Goebbels*** significa "Senhor Goebbels", "Sr. Goebbels" ou "Seu Goebbels". Goebbels foi o ministro de propaganda de Hitler, e seu sucessor no poder.
Herr Goering****, "Senhor Goering" foi comandante das forças aéreas no governo de Hitler. O Senhor Goering seria o sucessor de Hitler, até que foi demitido, e a sucessão passou para o Senhor Goebbels.
Ja****** significa "sim".

No dia 11 de dezembro de 1941, Adolf Hitler declarou guerra contra os Estados Unidos, alegando que os Estados Unidos estavam atacando navios alemães. Em 1942 foi gravada a canção "Der Fuehrer's Face", satirizando Adolf Hitler e sua ditadura. A canção surgiu bem no auge da Segunda Guerra Mundial. A canção foi gravada primeiramente por Spike Jones and his City Slickers, e depois apareceu no filme do Walt Disney. O nome do filme também é "Der Fuehrer's Face". A versão traduzida aqui é a versão do filme de Walt Disney.

Se você souber inglês, veja a letra e mais notas em inglês.

See the video Der Fuehrer's Face song, and the words and notes about the song.



Der Fuehrer's Face

When de* Fuehrer** says
"Ve*** is de master race"
Ve heil**** heil right in der Fuehrer's face
Not to love de Fuehrer is a great disgrace
So ve heil heil right in der Fuehrer's face

When Herr Goebbels***** says,
"Ve own the vorld and space"
Ve heil heil right in Herr Goebbels' face
When Herr Goering says,
"They'll never bomb dis place"
Ve heil heil right in Herr Goering's face
Is ve not de supermen Aryan pure supermen
Ja ve is de supermen (super duper supermen)
Is dis Nutzi land****** so good
Would you leave it if you could
Ja dis Nutzi land is good
We would leave it but if we could
We bring the vorld new order
Heil Hitler's Golden Order!
Everyone of foreign race
Vill love de Fuehrer's face
Ven ve bring to the world dis order*******

When de Fuehrer says
"Ve never will be slaves"
Ve heil heil but still we work like slaves
While de Fuehrer brags, and lies, and rants, and raves
Ve heil heil and work into our graves
When de Fuehrer yells
"I gotta have more shells"
Ve heil heil, for him we make more shells
If one little shell should blow him right to... (boom!)

Notes:
* DEFINITELY the singer doesn't say "der" in "der Fuehrer" but says "de" instead. That's funny, because they are trying to make fun of the pronunciation of the German, but can't pronounce correctly the German word "der"!

** "Fuehrer" means "leader". The "Fuehrer" was Adolf Hitler.

*** The German have trouble pronouncing the "w", therefore sometimes in the transcription I put "v" instead of "w", for the American singer was trying to ironize that pronunciation as much as he could.

**** "Heil" means "hail". Another nasty sarcasm. The term "Heil Hitler" was written in a sign in the propaganda film "Triumph des Willens".

***** "Herr" means "Mister".

****** "Nutzi land", here again the Americans are making fun of the pronunciation of the Germans. The German have trouble pronouncing "Nazi" and pronounce "nutzi"! "Nuts" means "crazy"! Thus, "nutzi land" means nothing more nothing less than "crazy land"!

******* The German have trouble pronouncing the "th", so when they try to say "this order" they actually say "dis order", and a native speaker of English might think they are saying "disorder"! That's the nastiest joke against foreigners, because this sound only exists in a few languages, such as Greek and Danish!

Observe also that the singer says "saze" instead of "says", here again making fun of the pronunciation of foreigners. Not to mention "or daa" instead of "order", etc!