12.2.10

O relato do terror do hospício, o terror do tratamento fechado (Não fique indiferente!)

Aqueles auxiliares de enfermagem eram jovens, como você já deve ter imaginado. Os enfermeiros de verdade eram mais velhos. Um deles sequer sujava suas mãos amarrando os pacientes psiquiátricos. Outro já me amarrava PESSOALMENTE quando eu estava “enchendo muito o saco.”

No hospício de Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, tinha um pessoal especial para amarrar as pessoas. O “pessoal da contenção”. Eles até sabiam amarrar sem oferecer perigo para a vida das pessoas.

Porém, no hospício de Piedade (Rio de Janeiro) quem amarrava eram os auxiliares de enfermagem.

Por serem muito jovens, e naturalmente despreparados para lidar com pessoas naquelas condições, aqueles auxiliares de enfermagem chegavam a ser perigosos, pois amarravam as pessoas sem uma supervisão sequer, de qualquer maneira.

Quando já era animalesco amarrar, amarrar de qualquer maneira gerava risco de morte e de infecções.

Qualquer oposição contra aquele pessoal do hospício de Piedade era motivo para amarrar na cama. Toda oposição era abafada.

Aqueles auxiliares de enfermagem não eram maus, mas sim despreparados. As ameaças que eles faziam eram mais assustadoras que as ameaças de alguns criminosos que havia encontrado na vida, antes de ser internado.

Comum ouvir desse pessoal frases como “Ou vai por bem, ou vai por mal”, isso quando alguém queria resistir ao castigo da amarração.

Uma vez, ao tentarem me amarrar, eles se irritaram com minha resistência e ameaçaram: “Está vendo essa sua cicatriz? (apontaram para a cicatriz que tenho na mão direita.) Se você continuar resistindo vamos fazer outra cicatriz como essa na outra mão.

Eles não estavam brincando. Ou eu respondia violência com violência, ou cedia. Devido a minha crença de não violência preferia ceder. Pois se fosse para continuar resistindo eu ia ter que considerar matar meus agressores.

E realmente esse tipo de violência eu não queria. Tanto por saber que no fundo eles não tinham culpa. Pois aquela violência já tinha virado natural para eles, por trabalharem num lugar como aquele.

Com certeza aqueles auxiliares de enfermagem chegavam a agredir pacientes psiquiátricos a socos. Agrediram a mim, como agrediram a outros. Isso para não falar das vezes que fomos enforcados no hospício. Mas eles sequer percebiam a violência disso.

Realmente eu podia ver que eles viam aquilo como uma correção normal. E aceitável. Esses auxiliares de enfermagem precisavam mais de ajuda que de repressão. O que tem que ser suprimido da face da terra é essa forma de explorar as pessoas colocando vidas em risco.

Em um dado momento um auxiliar de enfermagem descobriu um jeito eficiente de me deter enquanto eu dificultava que ele me amarrasse. Os outros auxiliares já tinham ido. Ele estava tentando acabar de amarrar um de meus braços.

Para acabar com minha resistência e ficar com as mãos livres para me amarrar ele simplesmente meteu o cotovelo na minha garganta e prosseguiu me amarrando. Naturalmente eu comecei a ficar sem respiração e poderia morrer ali.

Daí que comecei a gritar para ele “Você já me matou! Pare!” ao ouvir minha voz sufocada, ele se deu conta. Naturalmente tentei gritar com a voz sufocada mesmo, pois sabia que se continuasse naquela posição acabaria morrendo.

Dessas experiências, naturalmente, eu posso imaginar como meu tio realmente morreu no hospício. Porque, se eu morresse ali, infelizmente não haveria nenhuma investigação para descobrir como eu morri.

Nenhum familiar ia tentar protestar para que houvesse uma investigação. Diriam que eu tropecei e caí, e pronto. Caso resolvido. Quem ia se preocupar em descobrir a verdade?

Nas amarrações, feitas de qualquer de maneira, os pulsos ficavam machucados. O que poderia causar uma infecção.

As amarrações não eram forma de tratamento de forma alguma. Que ninguém seja hipócrita em defender tal ideia! Eu ficava amarrado a noite toda, frequentemente, pois eu estava realmente revoltado contra aqueles absurdos.

Eu os contrariava sempre, e cada vez que os contrariava era amarrado na cama.

E naturalmente não conseguia dormir, pois é muito difícil conseguir dormir amarrado. Pergunte a outros que passaram a noite amarrados na cama.

Que medida terapêutica seria forçar alguém a passar a noite sem dormir?

Quando era amarrado antes do jantar ficava sem comer nada até o dia seguinte, quando era solto. Quando era amarrado antes do lanche da tarde ficava sem comer até o dia seguinte.

Essa era a lei.

E ao ver a indiferença de alguns familiares quanto aos abusos daquele hospício eu realmente podia sentir como meu tio deve ter sentido ao morrer no hospício. Como muitos outros que morreram em hospícios se sentiram.

Entenda que meu tio morreu em 1993. A internação que eu descrevo aqui foi em 2001.

Agora veja: as condições em 1993 eram bem piores que em 2001.

Em 2001 já existiam Centros de Atenção Psicossocial no Rio de Janeiro (CAPS).

Em 1993 a situação estava bem feia.

Não havia CAPS nenhum no Rio.

Só projeto.

Eu fui internado no município do Rio de Janeiro. Meu tio foi internado na Baixada Fluminense, fora do município do Rio de Janeiro. Comparado as condições dos hospícios da Baixada Fluminense o Sanatório de Piedade, onde fui internado, era o paraíso.

Acho que não preciso explicar que o município do Rio de Janeiro recebe mais recursos que os outros municípios. Afinal, é a capital, cartão postal do Brasil.

Ao escrever o título O TERROR DO TRATAMENTO FECHADO me vi num dilema. Afinal, aquilo não era tratamento, nunca. Mas eu coloquei o título TRATAMENTO, pois achei que deveria sugerir que houvesse um tratamento de verdade no futuro, em estruturas abertas, acolhedoras.

Assim acaba este capítulo. UM FELIZ CARNAVAL PARA TODOS!

11 comentários:

  1. Anônimo4:35 PM

    sou a/e , hj aconteceu um episódio parecido, cliente acelerado,desorganizado, agitado, agressivo, hostilizado e mais agredindo outros colegas de quarto,
    conversamos, foi medicado e continuou.Então; para sua própria segurança o medico solicitou contenção, vc não imagina a força sobrenatural fisica que apresentam,´é dificil conte los para acalmarem, e quando é retirada a contenção normalmente nem se lembram do que ocorreu. Não estou defendendo a enfermagem, porque tb reconheço que existem vários tipos de profissionais e sim querer expor com minha experiência, que obtemos sim grandes melhoras de quadros psiquiátricos. Normalmente retornam por não darem continuidade no tratamento, então vamos divulgar a importãncia de tal. obrigada

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    1. Anônimo11:33 PM

      vai a merda /Isadora Brandão

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  2. Se você tivesse experiência você seria enfermeira-chefe, e não auxiliar de enfermagem. Desculpe a franqueza, mas é pra você cair na real.

    Se colocam pressão e/ou tentam forçar uma pessoa a fazer o que não quer é NORMAL a pessoa ficar agitada para se defender.

    Amarrar alguém à força é selvageria. Você vai se formar para ser enfermeira ou carcereira?

    Não se rebaixe ao papel de quem repreende, oprime e força.

    Obrigado por comentar.

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  3. Nossa, estou impressinada, Ezequiel. Nunca pensei em que ler relatos tão serenos de um paciente psiquiátrico que foi internado em manicômios.
    Desculpe-me a sinceridade. Na verdade, sinto-me envergonhada por ser tão ignorante, tão alienada.
    Parabéns por sua luta, sua coragem.
    E concordo: amarrar alguém contra a sua vontade é selvageria sim. Não é possível que não haja outra solução, que seja DIGNA.
    A partir de hoje, Ezequiel, meu olhar para a questão mudou. Sou educadora... não posso ficar indiferente a esta nobre luta.
    Obrigada.

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  4. Nossa, estou impressinada, Ezequiel. Nunca pensei em que ler relatos tão serenos de um paciente psiquiátrico que foi internado em manicômios.
    Desculpe-me a sinceridade. Na verdade, sinto-me envergonhada por ser tão ignorante, tão alienada.
    Parabéns por sua luta, sua coragem.
    E concordo: amarrar alguém contra a sua vontade é selvageria sim. Não é possível que não haja outra solução, que seja DIGNA.
    A partir de hoje, Ezequiel, meu olhar para a questão mudou. Sou educadora... não posso ficar indiferente a esta nobre luta.
    Obrigada.

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  5. oi cara, não sei por que você foi internado, pelo que você escreveu... achei você calmo e muito inteligente, o hospício é maluco??? me responde.

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  6. Anônimo9:30 PM

    Amigo eu fui internado em um sanatório da cidade de indaiatuba chamado
    de clinica indaia e lá eles matavam os pacientes com injeção letal depois
    falavam para os familiares que o interno passou mal e morreu do nada
    Até hoje tenho pesadelos com aquele lugar sofri tanto ali que resolvi abandonar
    os meus familiares e morar sozinho hoje sinto muita magoa por tudo isso
    lá no sanatorio clinica indaia na cidade de indaiatuba eu apanhava todo dia
    acordava 5 horas da manha não tinha almoço e nem janta somente chá com pão
    eu tinha que ajudar a carregar o corpo dos pacientes que eles matavam porque
    se não obedecer eles me matavam também esse segredo eu guardei a muito tempo e hoje estou aqui comentando para voces do blog podem ter certeza que tudo que escrevi é a verdade eu lamento muito por tudo isso

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    1. oi querido ,vç tomou a atitude certa de abandonar seus familiares ,também fiz isso ,melhor que mata los e vç ficaria pior num manicomio judiciario . ore a jesus e seja vç mesmo o dono de si . não tenho doença mental ,mas concordo com vç. sua história é veridica e seu que eles dão injeção de ar na veia dos internos . força e fé em jesus.

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    2. Olá,eu tmb sofri horrores em sanatórios aki no Paraná e vi muita gente morrer de repente.Fiquei com um trauma tão grande q meu prazer seria explodir todos esses hospícios com enfermeiros e médicos juntos.Eu vivia amarrada tmb ficava sem comer,e fazendo necessidades na roupa.MS machucavam muito e depois diziam pra minha família q tinha sido algum paciente,era minha palavra contra a deles,e adivinha em quem minha família acreditava? Tenho cicatrizes nos pulsos de tanto q ficava amarrada,agora odeio médicos,enfermeiros,ambulancia, hospital,e detesto a cor branca por causa da roupa daqueles demònios.Sanatório é o pior lugar do mundo.

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    3. Olá,eu tmb sofri horrores em sanatórios aki no Paraná e vi muita gente morrer de repente.Fiquei com um trauma tão grande q meu prazer seria explodir todos esses hospícios com enfermeiros e médicos juntos.Eu vivia amarrada tmb ficava sem comer,e fazendo necessidades na roupa.MS machucavam muito e depois diziam pra minha família q tinha sido algum paciente,era minha palavra contra a deles,e adivinha em quem minha família acreditava? Tenho cicatrizes nos pulsos de tanto q ficava amarrada,agora odeio médicos,enfermeiros,ambulancia, hospital,e detesto a cor branca por causa da roupa daqueles demònios.Sanatório é o pior lugar do mundo.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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Algumas pessoas, ao tomar medicações psiquiátricas ou drogas ilícitas, não sofrem efeitos adversos significativos (como vemos algumas pessoas que fumam a vida toda e morrem de velhice.) Portanto verei como normal algumas pessoas dizerem que nunca sentiram nenhum efeito colateral ao tomar determinado psicotrópico.

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